O comentador político Luís Marques Mendes questionou hoje sobre há quanto tempo se fala do voto eletrónico em Portugal e considerou que se fosse o setor privado a decidir sobre o tema, tal já teria sido introduzido no mercado português.

Marques Mendes falava num debate no âmbito do 25.º Congresso das Comunicações da APDC – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações, dedicado às tendências de negócio ('Business Trends'), que decorre hoje e quinta-feira no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa.

Luís Marques Mendes reconheceu que o Estado "é um ator importante" na economia portuguesa, mas apontou que este tem falta de sensibilidade para o aproveitamento da área das tecnologias de informação.

"Nesta matéria, de maneira geral, os privados têm mais sensibilidade que o Estado", afirmou, dando como exemplo do voto eletrónico.

"Há quanto tempo se fala do voto eletrónico? Votamos hoje à mesma maneira que há 41 anos. Se fosse no privado já tinha sido introduzido há bastante tempo", considerou o também advogado.

"Falta também a capacidade de investimento do lado do Estado, da Administração Pública, em geral", apontou, isto porque "em grande medida os recursos alocados são escassos", ou nem sempre estão alocados devidamente, fruto de uma ausência da reforma do Estado que já deveria ter sido feita há anos, pelo que "a tecnologia paga essa fatura".

Marques Mendes, antigo ministro do PSD, apontou ainda a questão da qualificação dos recursos humanos: "Este problema dentro da máquina do Estado é pior que no privado".

"O Estado hoje em dia não tem a mesma preocupação de qualificações", considerou, apontando que "paga mal", resultando na transferência de recursos humanos qualificados da Administração Pública para o privado.

"Para não falar na preocupação do mérito", acrescentou.

Marques Mendes defendeu a necessidade de continuidade de determinadas políticas aquando das mudanças de governos.

"Vamos ter uma ministra com a área da Administração Pública", afirmou, aludindo a Maria Manuel Leitão Marques, que tinha sido secretária de Estado da Modernização Administrativa no Executivo de Sócrates e que agora deverá assumir a pasta de ministra da Presidência e da Modernização Administrativa.

"Passaram aqui quatro anos e não houve o mesmo estilo de continuar a modernização e simplificação administrativa. É pena que quando muda o governo tenha de mudar tudo", lamentou, na sua intervenção no debate do congresso da APDC.

Marques Mendes considerou que o trabalho realizado na modernização administrativa pela futura ministra merecia ter sido continuado nos últimos quatro anos.

"Se houve um Simplex 1, tenho pena que não continuasse um Simplex 2", exemplificou.

O comentador político sublinhou que uma das grandes questões atuais é saber como conciliar o avanço tecnológico com a defesa da privacidade e a segurança, quando o terrorismo está na ordem do dia.

"O que me preocupa mais é quando não se regula, quando estamos num Estado de ninguém", porque "a partir daí todas as tropelias são possíveis", considerou.