Sem reservas, José Sócrates recordou a pessoa de Mário Soares no Jornal das 8 da TVI, pela ideia de que "falar das pessoas que amamos é também fazer o nosso luto". Assumindo ter desfrutado, quando se tornou dirigente do PS, de uma escola política marcada pelo fundador do partido. Que morreu no passado sábado.

A cultura de liderança que Mário Soares deixa no Partido Socialista é uma cultura de coragem e desassombro. De desprendimento pelo resultado. De desprendimento pelo cálculo. Ele gostava do risco e da incerteza. Isso marcou para sempre a liderança de Mário Soares e a uma cultura de liderança política dentro do Partido Socialista"; sustentou o antigo primeiro-ministro.

Para Sócrates, Soares "tinha o aspeto mais radioso da democracia". O que lhe permitiu ter conseguido assumir "duas facetas: o carisma do libertador, de alguém vitorioso, e uns anos mais tarde, ser capaz de fazer a reconciliação do país".

Não era apenas o respeito pela vontade popular. Era também a grande confiança nas pessoas, a grande confiança no País, a alegria com que fazia política. Ele nunca viu a política como um serviço, nunca viu a política como um sacrifício e nunca se viu a si próprio como alguém ungido para determinada missão ou como um líder messiânico", sustentou José Sócrates.

"Inscrevi-me na oposição ao Mário Soares"

Na opinião de Sócrates, Mário Soares "tinha um estética de rutura". Ou seja, "não gostava de seguir a opinião dominante", nem tinha a cultura de basear a escolha política no cálculo ou na negociação. Mas sim e sempre, "naquilo que achamos ser o bom caminho e lutar por isso sem medo de perder".

Uma filosofia de vida que, segundo Sócrates, Mário Soares cumpriu desde o início.

Mário Soares quando voltou a Portugal vinha já com a ideia de lutar por uma democracia pluralista. Por isso, fundou um partido que pretendia ser socialista, mas também um grande partido popular. Não apenas um partido marxista. Um partido interclassista", considerou o antigo primeiro-ministro.

Para Sócrates, o "desprendimento até do futuro" que Soares sempre teve era contagiante e, na maioria das vezes, conduzia-o a escolhas acertadas.

Quando me inscrevi no Partido Socialista, inscrevi-me na oposição ao Mário Soares, numa altura em que o PS teve uma cisão muito significativa entre o ex-secretariado e os soaristas. Ou melhor, o próprio Mário Soares. Mas uns anos depois vim a dar-lhe razão. Ele tinha toda a razão ao não querer apoiar o general Ramalho Eanes e ao lutar pela desmilitarização do regime", referiu Sócrates.

"Deitou a mão ao impossível"

Questionado sobre as visitas e o apoio recebido de Soares, quando esteve preso preventivamente sob a alçada do processo derivado da Operação Marquês, José Sócrates considerou haver, também nisso, uma dimensão política. Além de se tratar de um "gesto de simpatia" que ficará "para sempre registado no meu coração".

O que ele fez por mim faria por qualquer outro, nas mesmas circunstâncias. E fez aliás pelos seus adversários políticos. Porque isso era a grandeza do Mário Soares. Em grandes momentos, em que os seus adversários corriam riscos de exclusão, ele defendeu-os. Antes do 25 de Abril e depois do 25 de Abril. Porque ele era assim. Tinha um sentido da democracia, da diversidade, da pluralidade e uma grande consciência de que a politica se faz no campo da opinião", sustentou Sócrates.

Na ótica do antigo primeiro-ministro, a generosidade de Soares era acompanhada pela sua tenacidade em alcançar o que considerava melhor.

Nós só conseguimos o possível porque alguém tentou deitar a mão ao impossível. Mário Soares, logo a seguir ao 25 de Abril, deitou a mão ao impossível: vamos construir uma democracia pluralista. E ninguém acreditava que era possível fazê-lo em Portugal em tão breve espaço de tempo", concluiu José Sócrates.