O antigo Presidente da República Mário Soares mostrou-se solidário com os militares de Abril e prometeu repetir a ausência das comemorações oficiais da Revolução dos Cravos na Assembleia da República, tal como aqueles protagonistas.

«No dia 25 de Abril vou andar de cravo vermelho como sempre andei, mas, quando os militares de Abril não vão ao Parlamento, também não vou. Sou obrigado a dizer isto. Já duas vezes não fui», afirmou, numa conferência em Lisboa sobre o 40.º aniversário do golpe que derrotou o regime do Estado Novo de Salazar e Caetano.

Recentemente, elementos da Associação 25 de Abril, como o coronel Vasco Lourenço, e a presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, mantiveram uma polémica por os militares terem pedido para discursar durante as comemorações.

A segunda magistrada da nação, perante o anúncio dos «capitães de Abril» de que não estariam presentes, pela terceira vez consecutiva, em virtude de não irem usar da palavra, sublinhou que os convites foram formulados e que «o problema é deles».

Ramalho Eanes pede pacto para preservar Estado Social

O antigo Presidente da República Ramalho Eanes defendeu um pacto para preservar o estado social, sem o qual o pluralismo e a paz social estão «em perigo», argumentando é necessário manter a «unidade popular».

Na conferência do Expresso que reuniu os últimos três Presidentes, também Jorge Sampaio voltou a insistir na necessidade de uma estratégia que ultrapasse o «mandato legislativo», recusando falar em «pacto».

«Vamos fazer um pacto da reforma do estado, não discutindo se há mais ou menos Estado, mas termos o Estado a responder efetivamente aquilo que são as necessidades e as exigências de um estado social», desafiou Ramalho Eanes.

«Sem estado social, é esta a minha convicção, o pluralismo indiscutível e aceite, a tolerância que conduz à paz social, o conflito político aberto, frontal, através do diálogo, tudo isso está em perigo», advertiu.

O último painel da conferência juntou os três antigos Presidentes da República da democracia, Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio.

Para Ramalho Eanes, «é necessário um grande esforço para que a unidade popular se mantenha».

«Não se mantém com este nível de desempregados, com este nível de miséria, não se mantém havendo portugueses com fome, que é uma coisa que nos ofende e que não devíamos permitir», disse.

«Só encontrando uma concertação de forças sociais e políticas, de poder e sociedade civil, naquilo que é essencial, que modifique radicalmente o programa de gestão financeira que tem sido perverso, nós podemos, de novo, não é encontrar o presente, é encontrar o futuro que temos obrigação de deixar aos nossos filhos», afirmou, emocionando-se.

O general referiu-se à necessidade de programa económico de modernização e à saída da situação de «carência» que levou o país a pedir ajuda externa, mas, sobretudo, argumentou que é necessário sair dessa situação «sem agredir a solidariedade, sem agredir a unidade popular».

«A unidade popular é a convicção dos homens e das mulheres que trabalham aqui e agora que, trabalhando em conjunto, conseguem ter um presente melhor, mais justo, mais capaz e, sobretudo, que trabalhando em conjunto é melhor para os seus filhos e os seus netos», afirmou.

«Quando a juventude emigra, não por quer novas experiências, por necessidade, esta de alguma forma a dizer que não acredita no presente», sublinhou.

O antigo Presidente da República Jorge Sampaio apoiou as observações de Eanes sobre o estado social, sublinhando que é «importantíssimo não se reduzir a um estado mínimo».

Sampaio disse não querer falar de «pactos», afirmando que já foi mal-entendido sobre essa matéria, mas defendeu uma «estratégia a 5 ou 10 anos».

Essa estratégia deverá «ultrapassar o mandato legislativo habitual para que as políticas públicas possam ser avaliadas e tenham consistência».