O antigo Presidente da República Mário Soares afirmou esta terça-feira que «nunca Portugal foi tão destruído como é hoje» e defendeu a necessidade de mudar a forma como é praticada a democracia.

O antigo Presidente da República falava na conferência 25 de Abril/40 Anos: «Democracia», organizada pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, iniciativa em que também participou Francisco Pinto Balsemão.

A propósito dos partidos que estão no poder na Europa e em Portugal, que classificou de «populistas», Mário Soares salientou que «nunca Portugal foi tão destruído como é hoje. É preciso mudar o regime» para resolver os problemas nacionais que são «imensos».

«Sem que este Governo desapareça e sem que o Presidente da República desapareça também, nunca isto vai ao sítio ou vai dificilmente e isso é gravíssimo», afirmou Mário Soares perante uma sala cheia, principalmente de alunos.

O antigo Presidente da República lembrou o que foi conseguido a partir do 25 de Abril de 74 e criticou a atual situação, dizendo que o Estado Social já não existe, os sindicatos «já não têm dinheiro para nada», a Concertação Social «acabou» e não há Serviço Nacional de Saúde ou o que existe «é uma coisa cada vez pior».

O socialista previu que «o PS vai ganhar» as próximas eleições, mas que a abstenção será elevada, um assunto que não reúne acordo entre os dois políticos já que Francisco Pinto Balsemão disse não acreditar naqueles que defendem que «Seguro será o [próximo] escolhido».

O antigo primeiro-ministro Pinto Balsemão falou sobre o aparecimento de «novos poderes, não controláveis pelos mecanismos democráticos», como os serviços de informação ou as máfias, que beneficiam das novas tecnologias.

Mas, para Pinto Balsemão «a democracia está também ameaçada por grandes multinacionais, grandes fundos de investimento, grandes fundos de pensões», novos poderes que associados à «entidade mítica» denominada de «mercados», são «incontroláveis pelos mecanismos normais da democracia».

«Pelo contrário, parecem aliar-se a outras fontes de intervenção também elas incontroláveis» e dá o exemplo das agências de rating ou dos detentores de dados sobre os hábitos de consumo.

«Como estamos, com a democracia que temos, no presente, não conseguiremos transpô-la, adaptá-la, mantê-la viva e atuante no futuro», alertou aquele que foi um dos fundadores do PPD.

O antigo primeiro-ministro defendeu ainda a necessidade de tomar medidas e executá-las «sem atraso e sem desvios, pseudo justificados pelos conservadores de todos os quadrantes com desculpas formais e adiamentos mesquinhos» e avançou o exemplo do «eterno e suicidário» adiamento da revisão da lei eleitoral.

Apontou igualmente ser «indispensável» para assuntos como saúde, educação, justiça e organização do Estado «um acordo, consenso ou pacto, o nome é indiferente, entre as forças democráticas», para definir um programa que se prolongue por duas legislaturas, independente de quem está no Governo.

«Há quem diga que isso é antidemocrático, o que é antidemocrático é deixar a democracia ir se esfarelando porque as decisões não são tomadas», frisou.