Mário Soares lançou esta quarta-feira um novo livro, «auto-biográfico», porque tem «muita honra» em ser político. Em entrevista a Constança Cunha e Sá, na TVI24, falou da obra «Um político assume-se - Ensaio político e ideológico», de Salazar e Cunhal, de Cavaco e Passos Coelho, e de uma Europa «à beira do abismo».

«Eu não sou um herói, mas realmente não sou dos mais medrosos. Podiam ter-me acontecido coisas muito desagradáveis, mas saí-me bem nas coisas que fiz», resume.

Garante que não pensa muito na morte, não é coisa que o preocupe «por agora». «Felizmente tenho tido saúde. Estou talvez melhor do que quando tinha 18 anos, quando era muito frágil».

O ex-Presidente da República voltou atrás no tempo para recordar o seu professor de Direito, Marcelo Caetano. «Tratava-me muito bem. Fui um aluno mais ou menos medíocre, mas deu-me logo um 13». Um dia, foi chamado ao seu gabinete. «No final pôs-me a mão no ombro e disse: o senhor pode vir a ser um homem importante para esta casa, mas tem de se deixar dessas aventuras da política». Soares respondeu-lhe que não queria ser professor.

Em S. Tomé, escreveu uma carta a Marcelo a denunciar a «ilegalidade» da sua deportação. O professor admitiu que era «uma grande injustiça», mas citou a Constituição, «onde dizia que as pessoas que são perigosas para o Estado podem ser presas sem julgamento». «E eu respondi-lhe: se isto um dia muda, como podemos tratar os senhores, se nós formos governo? Já não me respondeu. Dois ou três dias depois, Salazar caiu da cadeira. E eu fiquei eufórico, porque percebi que ele ia morrer».



O PREC, Cunhal e a guerra civil

Mário Soares conta como um «petroleiro» esteve em «frente a Leixões», preparado para «bombardear Lisboa se os comunistas tivessem tomado conta da comuna». «Aí haveria uma guerra civil».

Do outro lado estava Álvaro Cunhal, «que tinha aquela ideia de fazer de Portugal a Cuba do Ocidente». «Não tive uma relação difícil com Cunhal, ele é que teve comigo. Quando o visitei na Checoslováquia começou a tratar-me por senhor doutor. Deixei de ser camarada e passei a ser rival».

Mantiveram «relações cordiais até ao fim», «mesmo naquele célebre debate de 6 horas». Mas Soares via-o como «um tipo muito complexado». «Julgava-se o Lenine do Ocidente no final do século XX».

«O fim de uma era»

O ex-PR não está optimista com a Europa que ajudou a criar. «Estamos à beira do abismo. Não há uma estratégia para salvar o euro e a própria UE». Numa entrevista ao «i», falou em revolução, mas «não é preciso ser violenta ou com militares». Prefere antes uma «profunda transformação cultural e política». «Temos de deixar o neo-liberalismo, meter os mercados na ordem e as máquinas a fabricar dinheiro do BCE. Estamos a chegar ao fim de uma era».

Deseja o «regresso» do verdadeiro «projecto europeu». «O que vai morrer é o neo-liberalismo, como morreu o comunismo. São duas ideologias completamente distorcidas». Mas admite que a Internacional Socialista «praticamente não existe» e lamenta que não haja «um único governo socialista na Europa».

Mário Soares vê o «falhanço do socialismo» e exige uma «renovação». «Voltarão as grandes linhas, os grandes princípios. Regressará uma Europa de valores e não de dinheiro».

«Eu salvei Cavaco»

Nem sequer quer pensar no fim do euro, porque era «tão estúpido, tão estúpido...» Acredita que Angela Merkel «não vai tão longe» e que Passos Coelho, seu «amigo», «vai ter de mudar» em relação ao neo-liberalismo, porque «a senhora Merkel também vai ter de mudar».

De Cavaco, sublinha que o agora Presidente tem «algum valor». «Eu salvei-o no princípio, quando foi eleito com 29%, eu dissolvi a AR e salvei-o. Se não fosse eu, não tinha seguido por aí fora e ele sabe isso».

Soares garante que «nunca» se arrependeu da última candidatura a PR e rebate o argumento da idade. «Já passaram 6 anos e não estou gagá». Para o futuro, promete bater-se com a sua «única arma»: a caneta.