O ex-presidente da República Mário Soares disse este sábado, em Loulé, estar convencido de que as eleições europeias vão ser um «desastre» para o Governo e que o PS vai vencer o escrutínio de 25 de maio, mas «não por muito».

«Procuro ser realista, gostaria que o PS ganhasse por muito, mas dadas as sondagens e tudo o que se sabe, vai ganhar, mas não por muito», afirmou Mário Soares aos jornalistas, após participar num debate comemorativo dos 40 anos do 25 de abril, organizado pela Câmara de Loulé.

Mário Soares recordou como o povo português «reagiu todo do norte do país ao sul», como «nunca tinha visto», a expressar a insatisfação pela atuação do Governo de coligação PSD/CDS-PP e pelas políticas de austeridade por ele implementadas, no 25 de abril.

«E porquê? Porque eles [povo português] acham que o 25 de abril, com este regime, foi traído e porque acham que é preciso liquidar este Governo¿, disse o antigo presidente da República, que preferiu estar no Largo do Carmo ¿ao lado dos militares de abril» e com «uma multidão» em vez de participar nas cerimónias oficiais no Parlamento.

«Não sou pessimista, pelo contrário, procuro ser realista, mas sou otimista. E estou convencido de que este maio que está em curso vai ser um mês que nos vai dar muitas surpresas. Há uma votação para o Parlamento Europeu, bem sei, não é uma votação legislativa, mas essa votação vai dar um desastre para o ministério, quer para o caso do [primeiro-ministro] Passos Coelho, quer para o caso do [vice-primeiro-ministro, Paulo] Portas e também para o presidente da República [Cavaco Silva], como é evidente», disse na intervenção.

O Governo não tem, segundo o histórico militante socialista, «nenhum interesse popular, não fala com o povo», e isso é percetível, na sua opinião, porque «não há nenhum ministro que possa sair à rua sem ser vaiado, insultado, todos os dias, e ficam sempre como se nada fosse com eles».

«Mas isso paga-se caro e um dia vai-se pagar muitíssimo caro. Vamos ter eleições e eu espero que o PS ganhe estas eleições. Talvez não por muito, mas vai ganhar, e isso vai ser um grande salto em frente», afirmou, manifestando também a esperança de que essa tendência de mudança se verifique por toda a Europa.

Soares apelou, no entanto, à participação dos portugueses no ato eleitoral de 25 de maio, porque o «voto é a arma do povo», pedindo para não votarem em branco, mas sim «de uma maneira que lhes possa dar alguma esperança para o futuro».

A dimensão europeia da crise também foi abordada por Soares, que deu o exemplo da atuação do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, como forma bem sucedida de inverter o ciclo económico.

«A crise europeia é uma crise terrível, toda a gente julga que é uma coisa terrível, mas não é. Bastaria que o BCE fizesse o que fez o Barack Obama na América. O Barack Obama encontrou uma crise brutal e, em dois anos, a América subiu muito. E por que é que subiu? Porque fabricou dólares. Se o BCE fabricasse euros, a crise acabava de um dia para o outro», defendeu.