O Bloco de Esquerda (BE) trouxe esta quarta-feira ao parlamento o sistema bancário português, nomeadamente os casos do BES/Novo Banco e do Banif, e defendeu um "redondo e rotundo não" à entrega "por inteiro" do sistema financeiro "a interesses externos".

"O dispositivo europeu que impôs a venda do Banif é o mesmo que amanhã virá a exigir a privatização da Caixa Geral de Depósitos. E tudo será feito em nome do suposto interesse dos contribuintes portugueses", alertou a deputada bloquista Mariana Mortágua numa declaração política no parlamento.


Sinalizando que "é difícil, nesta fase, fazer um cálculo exato de tudo o que custou a inércia deliberada do anterior governo" ou a "precipitação dos eventos dos últimos dias" no sistema bancário, a deputada chama contudo a atenção: "Se assumirmos as últimas contas publicadas pelo Banif como realistas concluiremos que o montante injetado é maior que o buraco detetado no banco".

E acrescentou: "Quem comprou o Banif levou um banco que não só está limpo como ainda tem dinheiro de sobra para recapitalizar o seu novo dono".

Já o Novo Banco, reconhece Mariana Mortágua, é "maior e mais importante que o Banif", e "quem o detiver determinará boa parte da política de crédito ao setor empresarial do país, sem falar na enorme rede de agências e nos seus trabalhadores".

O empréstimo de 3,9 mil milhões de euros do Fundo de Resolução "não tem data de retorno", lembrou a parlamentar, e "desengane-se" quem acha que a resolução do BES "foi feita sem recurso a capitais públicos".
 

"O Banco de Portugal não aprendeu com os erros de ontem. A pressa em despachar o Novo Banco é, em si, um fator evidente de desvalorização que só beneficiará o comprador", declarou a deputada do Bloco.


No Novo Banco e no Banif, Bruxelas - acredita Mortágua - quer "concentrar a propriedade da banca portuguesa nas mãos dos grandes grupos financeiros europeus".

"O que está em cima da mesa é o fortalecimento do mercado financeiro único europeu, dominado por grandes grupos económicos, à custa da absorção dos bancos nacionais saneados com dinheiros públicos. É exatamente por esta razão que o Banif nunca deveria ter sido entregue ao Santander e que o Novo Banco não pode ser privatizado", vincou a deputada.


O parlamentar do PS Carlos Pereira, numa declaração seguinte à da bloquista, criticou PSD e CDS-PP sobre o Banif, dizendo que ambos os partidos "esconderam o que se estava a passar" na entidade "por motivos eleitorais".

Duarte Pacheco, deputado do PSD, definiu as palavras de Mariana Mortágua como "a crítica mais contundente ao PS e ao Governo do PS" vinda da bancada do Bloco, partido que apoia o executivo a nível parlamentar.

"Dia após dia o BE quer estar com o governo nas coisas simpáticas mas quer desresponsabilizar-se pela totalidade de gestão", criticou o social-democrata.

Já Miguel Tiago, deputado do PCP, lembrou o que defende ser a necessidade de haver um "controlo público da banca".