Mariana Mortágua não tem "absolutamente nada contra a iniciativa privada". A deputada do Bloco de Esquerda e o também bloquista Jorge Costa lançaram o livro "Privataria: quem ganha e quem perde com as privatizações em Portugal" e explicaram no programa "Política Mesmo", na TVI24, que estes negócios "são exatamente o contrário da iniciativa privada". 

Mariana Mortágua: "Na economia portuguesa, não me passa pela cabeça ser contra. O que me parece é que há um preconceito quando há iniciativa pública em setores estratégicos. O Oceanário [que já não houve tempo para integrar no livro] é exemplo muito bom: alguma vez o dono do Pingo Doce teria interesse em construir um oceanário com propósitos pedagógicos? Uma vez que dá lucro, agora sim os privados têm interesse em ter essa renda"


Jorge Costa ​também acrescentou depois que "o Estado fez, colocou em funcionamento, tornou essas empresas rentáveis". Depois, vêm empresas privadas ou fundos que "vão rentabilizar essa renda garantida, uma receita que poderia ser pública, devia ser pública, precisávamos que fosse pública ", reforçou.

O dirigente bloquista defendeu que renacionalizar é a única maneira para fazer face à crise.

"Fala-se de estímulo à economia e de ter país a produzir. Ter os combutíveis mais caros da Europa para alimentar a renda de Américo Amorim e da Sonangol é uma boa maneira de dar uma machadada nas pequenas produções agrícolas. A eletricidade, a mesma coisa, com o Governo chinês" a receber essa receita.


Brincando com o título do livro, o jornalista Paulo Magalhães começou por perguntar quem são, então os "piratas". "Há diversos grupos de piratas. Quem facilitou de um lado ou de outro estes processos de privatização. Todos eles por motivos diferentes, todos contrários ao interesse público e ao interesse do país, quer do ponto de vista financeiro, quer do ponto de vista estratégico", respondeu Mariana Mortágua.

A deputada não consegue destacar um só caso "mais escandaloso". Deu alguns exemplos, como a Portugal Telecom. "Quando foi privatizada o que assistimos foi a descapitalização da empresa e investimento perfeitamente ridículo no BES, que foi à falência por má gestão".

Outro caso: os Estaleiros de Viana. "Quando o próprio Estado abandona um setor é normal que empresa dê prejuízo e seja preciso privatizar".

Os argumentos dos "piratas" variam, de resto, como se todos fossem válidos. Perante isso, Mariana Mortágua só consegue recorrer à ironia: "A TAP é preciso privatizar porque dá prejuízo. A EDP é preciso privatizar porque dá lucro". 

Já esta quarta-feira, num debate parlamentar, a deputada caracterizou as privatizações como "contratos para português ver e chinês assinar".

As empresas que têm vindo a ser privatizadas são "monopólios, rendas garantidas, negócios seguros (eletriticidade, energia, telecomunicações) que entregravam lucros ao Estado", recordou Jorge Costa. O que aconteceu? "Criaram uma receita repentina, muito grande, mas [com o tempo] desapareceu não só o controlo do Estado, como a entrega de dividendos".

Conclusão, segundo os autores do livro 'Privataria': "Negócios ruinosos". A propósito, o Tribunal de Contas divulgou esta semana um relatório de auditoria que critica várias privatizações. No caso da EDP e da REN, o Governo não tomou medidas legislativas "que acautelassem os interesses estratégicos do Estado Português após a conclusão do processo".