Não havia volta a dar: as subvenções vitalícias dos políticos, cuja suspensão foi travada no Tribunal Constitucional, marcou o dia de campanha de Maria de Belém - o regresso após a morte de Almeida Santos. Primeiro foi no almoço, na Cervejaria Trindade, em Lisboa, e depois à noite no comício que teve lugar no Centro de Congressos. A candidata justificou o pedido de revisão, afirmando que defende "sempre" a Constituição, mas admitiu que pode "perder votos". As sondagens, de resto, não jogam a seu favor. Maria de Belém aproveitou ainda para enumerar os "equívocos" que marcaram esta campanha e foi mais longe, afirmando que "houve muita gente a tentar desfazer" o seu "caráter".

Depois de ter cancelado as ações de campanha durante dois dias, na sequência da morte de Almeida Santos, Maria de Belém voltou hoje, não à estrada - pois o dia foi passado inteiramente em Lisboa -, mas à campanha eleitoral. Um regresso marcado pela polémica em torno da suspensão das subvenções vitalícias dos políticos - tema que surgiu como uma sombra nesta reta final da corrida a Belém.

O auditório do Centro de Congressos de Lisboa estava muito vazio - 79 lugares ocupados em mais de 300 - e ninguém mexeu nas bandeiras espalhadas pelos vários lugares. A comitiva de Maria de Belém chegou uma hora atrasada em relação ao previsto e eram já cerca de 22:00 quando o comício, por fim, começou.

Mas a fraca plateia não inibiu Maria de Belém, que teve um dos discursos mais acalorados desde que está em campanha.

A candidata voltou a justificar a sua posição em relação à polémica das subvenções, afirmando que se associou ao pedido de revisão porque defende sempre a Constituição e "não concorda com cortes retroativos".

"Se me associei ao pedido de revisão é porque não concordo com cortes retroativos, que é uma cosia completamente diferente daquilo que está a ser dito. Não concordo com a ofensa ao principio da confiança. Não concordo coma  alteração sistemática do sistema fiscal."

E neste sentido continuou: "Nunca comprometerei a minha consciência para obter ganhos rápidos e fáceis. Porque os ganhos fáceis também se esgotam rapidamente. [...] Nunca me escondi para assinar o que quer que fosse e nunca andei ao sabor das conveniências e dos oportunismos."

A candidata não poupou nas críticas aos adversários, sobretudo a Marisa Matias, que tinha considerado a decisão do Tribunal Constitucional "vergonhosa". Belém afirmou que nem o governo de direita, que tinha visto várias leis serem consideradas inconstitucionais, tinha ofendido o tribunal, como a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda o fez.

"Nunca o governo de direita, que viu muitas das suas leis serem consideradas inconstitucionais ofendeu o Tribunal Constitucional e era preciso haver candidatos de esquerda que dizem que o tribunal e as suas decisões são uma vergonha. Isto não é tolerável."
 

Maria de Belém lembrou ainda que a extinção das subvenções aconteceu durante um governo socialista - de José Sócrates -, e que na altura não ouviu nenhuma destas "vozes escandalizadas" a apresentar qualquer iniciativa. "Por onde andavam essas vozes escandalizadas? Não demos conta delas."

A ex-presidente do PS foi mais longe, afirmando que durante esta campanha "houve muita gente a tentar desfazer o seu caráter".

"Desde que tive a ousadia de pôr nos meus cartazes 'uma mulher de caráter' houve imensa gente a tentar desfazer o meu caráter. Mas não desfazem o meu caráter nem a minha integridade. Não aceito juízos de caráter a quem cumpre a lei por parte de quem nunca a cumpriu."

E até esclareceu aquilo que chamou de "equívocos" que, segundo a ex-ministra, marcaram esta campanha.

O primeiro relacionado com o financiamento da campanha. "O PS não financia esta campanha. Esta campanha tem sido financiada pela generosidade das pessoas."

Depois, um "equívoco" que remonta a 2011 e à fiscalização sucessiva do orçamento desse ano.

"Foi considerado que eu não teria promovido a fiscalização sucessiva relativa ao Orçamento de 2011, não dizendo as coisas de forma clara. Houve uma decisão politica nesse ano de não pedir a avaliação do orçamento porque o resultado poderia ser alargado a mais pessoas [pessoas que tinham sido atingidas pelos cortes]. Como deputada e presidente do PS estava obrigada por essa decisão."


Antes da candidata, Vera Jardim também discursou para atacar os restantes candidatos, ainda a propósito da questão das subvenções. O socialista considerou que uma "onda de populismo invadiu a campanha" e que, se até agora, não tinha havido discussão política, agora passou a existir a "discussão errada".

"Os últimos dias da campanha foram agitados por um conjunto de fenómenos e posições que vieram transformar a campanha eleitoral. Até aí não tinha havido discussão política, agora passou a haver a discussão errada. Uma onda de populismo invadiu a campanha."


Num dia cinzento e chuvoso, passado inteiramente em Lisboa, Maria de Belém começou o 12º dia de campanha com um almoço na Cervejaria Trindade - um local que há muito serve de ponto de encontro para os socialistas. Ao seu lado dois pesos pesados do PS que já tinham participado noutras ações de campanha,  Manuel Alegre e Jorge Coelho, e ainda Marcos Perestrello.

E foi logo à entrada da Cervejaria que a candidata falou no tema das subvenções, questionada pelos jornalistas. A ex-presidente do PS admitiu que a polémica "pode ser muito prejudicial" para a sua candidatura e que pode mesmo "perder votos".  

As sondagens, de resto, não jogam a seu favor. A sondagem da TVI, divulgada esta quinta-feira, coloca Maria de Belém bem atrás de Sampaio da Nóvoa. Consegue 10,1% dos votos, enquanto o ex-reitor 16,9%.
 
Ainda assim, a candidata não desanima e esta quinta-feira voltou a apelar à mobilização de eleitores no domingo.

Esta quinta-feira ainda houve tempo para a candidata se dedicar a uma faixa do eleitorado que tantas vezes se diz estar afastada da política. No edifício Embaixada, um palacete emblemático do Príncipe Real que foi transformado num espaço comercial, a candidata presidencial esteve reunida com alguns jovens - pouco mais de 20 - que lhe colocaram questões sobre as presidenciais.

Maria de Belém entende que hoje há estímulos para só jovens se interessarem por política: "a dificuldade do emprego", "a natureza dos vínculos laborais".
"No tempo que vivemos há novos estímulos para os jovens.  A dificuldade do emprego reclama políticas públicas adequadas, a nova natureza dos vínculos laborais, a instabilidade que os atinge. Considero que há motivos para que os jovens se interessem pela política."

E o que diria a um jovem que não pretende ir votar no dia 24? "Tentaria convencê-lo, dizendo que somos pessoas com autonomia e independência e temos de nos afirmar. Quando deixamos de votar minamos a legitimidade dos órgãos."

Maria de Belém regressa amanhã a casa, isto é, ao distrito do Porto, de onde é natural, para várias iniciativas a um comício. O jantar de encerramento esse será noutra cidade do coração - Coimbra, onde estudou Direito.