Maria de Belém Roseira partiu para esta campanha sozinha, sem máquina partidária, e isso refletiu-se na volta que fez ao país: uma pequena caravana, que gerou pouco aparato por onde passou. Com uma mobilização de apoiantes reduzida, viu Sampaio da Nóvoa a arrastar mais multidões. E não terá sido por acaso que, na segunda metade da campanha, subiu o tom de um discurso que tinha começado morno. Puxando dos galões, que é como quem diz dos seus 40 anos de militância, não se cansou de dizer – palavras suas – que era socialista "com muito orgulho", deixando recados claros a António Costa. Só que quando o ambiente parecia aquecer, um acontecimento inesperado fez a caravana abrandar - a morte de Almeida Santos - e uma polémica veio para assombrar a campanha - as subvenções vitalícias dos políticos, cuja suspensão Belém ajudou a travar.

Sem o apoio do PS, Maria de Belém começou esta campanha eleitoral sabendo que dividia a área socialista com Sampaio da Nóvoa. A ex-ministra tinha apenas um ministro do seu lado, João Soares, que esteve ao seu lado no arranque em Alpiarça. Contando ainda com cinco pesos pesados do partido  - Alberto Martins, Jorge Coelho, Vera Jardim, Manuel Alegre e Almeida Santos, que faleceu durante a campanha, do outro lado, isto é, do lado de Nóvoa, estava um respeitado leque de apoiantes. O ex-reitor tinha consigo muitos ministros de António Costa, como Capoulas Santos, Augusto Santos Silva, Vieira da Silva, Adalberto Campos Fernandes e Eduardo Cabrita, e figuras de peso como o presidente do PS, Carlos César, e os antigos chefes de Estado Mário Soares, Jorge Sampaio e Ramalho Eanes.

Maria de Belém saberia que, no horizonte de uma segunda volta, Nóvoa era o alvo a abater. Mas nunca o admitiu. Aliás, o único candidato que designou como adversário foi Marcelo Rebelo de Sousa, apoiado pelo PSD e pelo CDS.


Sem comentários


A correr contra o "verdadeiro adversário” Marcelo, Maria de Belém começou com um discurso "no comments" - sem comentários aos outros candidatos e sem comentários às outras campanhas. Não falava diretamente, quando era questionada pelos jornalistas, mas aqui e ali, nos comícios, não se privava de deixar farpas aos adversários e particularmente a Sampaio da Nóvoa.

Não, Maria de Belém nunca nomeou o ex-reitor. Nem precisou de o fazer. As críticas eram óbvias: alguém que nunca desempenhou, como ela desempenhou, funções políticas de relevo e que nunca esteve, como ela esteve, “sob escrutínio público”.

E foi sempre neste jogo pouco claro – não falando diretamente dos adversários, mas deixando vários recados nos comícios - que montou a sua estratégia. Uma estratégia que contou com a preciosa ajuda de terceiros.

Os seus apoiantes socialistas, Jorge Coelho em Viseu, Manuel Alegre em Santo Tirso, Vera Jardim em Fafe, tomaram a palavra para desferir duros golpes nos restantes candidatos e nas suas campanhas. Manuel Alegre e Vera Jardim chamaram a atenção, inclusivé, para aquilo que designaram como “batota”, sugerindo que Nóvoa estava a ser apoiado por estruturas partidárias do PS.

E houve mesmo um aviso sério aos socialistas: “eu já vi este filme”, disse Manuel Alegre, lembrando que Ramalho Eanes, após ter sido eleito Presidente da República como independente, apoiado pelo PS, esteve na fundação de um partido “contra os socialistas”, o PDR.

Maria de Belém parecia deixar as armas de fogo para os apoiantes. Quanto a si preferia ser mais súbtil na escolha de palavras. Questionada pelos jornalistas sobre os ataques dos seus apoiantes, Belém foi breve na resposta: “não sou censora”.


O momento mais quente


Mas as eleições apoximavam-se e a corrida apertava. As primeiras sondagens em período da campanha atribuíam um empate técnico a Belém e a Nóvoa. Com jantares que reuniam poucas centenas de apoiantes, a ex-presidente do PS via Sampaio da Nóvoa a juntar milhares nos seus comícios e a destacar-se com uma forte mobilização de apoiantes. Terá sido embalada por estes fatores que Maria de Belém decidiu subir o tom do discurso na segunda metade da campanha. 

Primeiro num comício em Arcos de Valdevez, onde fez questão de vincar a sua militância, com um recado ao PS e a António Costa: “Socialista candidata sou eu”. Depois em Bragança, terras de muito frio que viram a campanha a aquecer com a ex-ministra a ser mais clara do que nunca: “Era o que mais faltava ser mais importante apoiar independentes do que socialistas.”

Agora sim, não restavam dúvidas: Maria de Belém concentrava energias no eleitorado da área socialista, dividido entre a candidata e Sampaio da Nóvoa, e fazia-o na posição de militante, de ex-ministra e de ex-presidente do PS. Não admitia, por isso, que o PS - ou pelo menos parte do PS -, apoiasse Nóvoa- um candidato independente, não militante, sem passado político.

Estávamos no ponto mais quente de uma campanha que tinha começado a meio gás, de forma “confortável” até.


Muito tempo para arriscar a rua


Nos primeiros dias de campanha a candidata dedicou-se a setores que conhece muito bem, não tivesse dedicado muito do seu trabalho à área da solidariedade social e ao setor da saúde. Visitou várias misericódiras e hospitais. Fê-lo em Santarém, fê-lo no Algarve, fê-lo em Évora, fê-lo no Porto, fê-lo em Braga, e por aí fora.

Acusada de jogar na sua "zona de conforto", Maria de Belém justificou as iniciativas, destacando a economia social como uma das suas bandeiras, que oferece respostas ao "lado mais frágil da sociedade" e que pode ser um "instrumento de valor" - "dá trabalho a muita gente”, defendeu.

A par da economia social, outra causa se destacou nesta campanha: a igualdade de género, Assinalando que foram as mulheres quem mais sofreu com a crise, Maria de Belém visitou empresas que praticam igualdade salarial para as destacar como exemplo para o país.



Mas para uma candidata que disse, por diversas vezes nas suas intervenções, que queria estar “junto das pessoas”, Maria de Belém apenas se mostrava em ambientes controlados. Sem arriscar, por exemplo, uma arruada.

Foi apenas ao sexto dia de campanha que se estreou na rua e dessa primeira vez nem sequer há muito para contar. Quando a comitiva chegou à feira da Nazaré, no dia 15, pela hora de almoço, já o recinto estava praticamente vazio e os feirantes começavam a arrumar as bancas. 

Só no dia seguinte, em Valongo, e um dia depois, na Tocha, Maria de Belém levou banhos de multidão. Selfies, abraços e beijinhos, rostos, nomes e problemas concretos. A imprevisibilidade da rua, por fim. Aqui, onde os candidatos presidenciais são confrontados com os mais diversos testemunhos, aqui onde os candidatos podem auscultar uma amostra - ainda que muita pequena-, da sociedade.

A candidata viu-se entre as pessoas e viu-se a escutar as pessoas. A maioria idosos e mulheres, as faixas do eleitorado que a conhecem melhor, a si e às suas "provas dadas" - que tanto referiu ao longo da campanha.



Uma morte inesperada e a sombra das "subvenções"


O final da volta pelo país ficou marcado por um acontecimento inesperado: a morte do histórico socialista Almeida Santos, no dia 18. O presidente honorário do PS morreu um dia depois de ter discursado num almoço que juntou dezenas de apoiantes de Belém na Figueira da Foz. O falecimento levou a candidata a cancelar todas as iniciativas até ao funeral e a só retomar a campanha no dia 21. A partir daí, sem festividades ou efusividade.

A perda surgiu no momento mais delicado para Belém, também em termos polítios. Isto porque a candidata foi uma das 30 personalidades que travaram a suspensão das subvenções vitalícias dos políticos.

A lista foi tornada pública precisamente na última semana de campanha, depois de o Tribunal Constituicional ter considerado a suspensão inconstitucional.

Maria de Belém respondeu às críticas, afirmando que defende sempre a Constituição, "em qualquer circunstância" e que luta bem pelos direitos dos outros quando luta também pelos seus. Garantiu que nunca recebeu nenhuma subvençãomas admitiu perder votos na sequência da polémica.