São regiões "esquecidas", assoladas pela desertificação, que gera desigualdades. O interior do país quer ter mais visibilidade e Maria de Belém quer colocá-lo no mapa da agenda política nacional. No nordeste transmontano, a candidata assinalou isso mesmo, esta segunda-feira. E foi em terras de muito frio que deitou achas à fogueira da campanha presidencial, apelando ao voto útil na sua candidatura e deixando um recado claro: "Era o que faltava agora ser mais importante apoiar independentes do que socialistas."

Maria de Belém começou o nono dia de estrada em Bragança. Terras de imponentes montanhas verdes que até parecem tocar o céu, mas onde a paisagem desafogada não parece ser o suficiente para fixar mais habitantes. E é aqui que as entidades que atuam localmente, promovendo o desenvolvimento da região, ganham uma enorme importância. Como o Instituto Politécnico de Bragança.

Este instituto procura atrair alunos de outras zonas do país e até além-fronteiras - 15% de estudantes são estrangeiros. Além disso, desenvolve projetos de investigação na área agrária - muito importante para a economia da região - e no campo da geriatria - fundamental numa zona muito envelhecida -, no sentido de melhor servir a população.

Apesar destes indicadores, os agentes políticos parecem desvalorizar a importância destas instituições. Pelo menos é o que dizem os docentes do politécnico que se queixam da concentração de recursos nos grandes centros urbanos. Maria de Belém promete fazer diferente e dar atenção a estas regiões "esquecidas".

"Se for eleita assumo o compromisso de dar atenção às regiões que são esquecidas no mapa."


Para a candidata, combater as desigualdades territoriais é uma prioridade, uma vez que estas "rompem com a coesão social" e levam ao "enfraquecimento do país".

A ex-ministra do PS garantiu que podem contar com o seu compromisso nesta matéria. E que a prova disso é ter escolhido visitar o interior em plena campanha eleitoral, ao invés de escolher áreas mais provoadas e favoráveis à caça de votos.

"Apesar de [aqui] haver poucos votos, as opções políticas devem ser feitas em função de princípios e valores e não apenas em função de interesses eleitorais imediatistas. O que me interessa verdadeiramente dizer é 'este também é Portugal, este Portugal também é nosso' e este Portugal também tem uma parte que é uma parte de conhecimento e inovação' que deve ser valorizada e posta ao serviço não só da região como do país inteiro."


A poucos quilómetros da cidade, em Gimonde, outro exemplo de como se pode promover o desenvolvimento do interior: a salsicharia Bísaro, Salsicharia Tradicional. Primeiro porque tem no porco Bísaro, típico na região, a sua matéria de trabalho e depois porque tem uma forte articulação com a Escola Agrária do Instituto Politécnico de Bragança.

Um cheiro intenso fazia-se sentir. Vários enchidos dispostos pelas máquinas. Vestida a rigor, com uma capa transparente, touca na cabeça e proteções para os pés, a candidata percorreu as diferentes secções de produção desta empresa.
 

O relógio marcava cerca de 13:00. Mesmo ali ao lado, no restaurante que também integra o negócio da Bísaro, estava agendado um almoço com algumas dezenas de apoiantes.

O espaço rústico, escuro, com dois pisos, serviu de cenário para um discurso que mostra que Maria de Belém, na reta final da campanha, concentra energias no eleitorado da área socialista, dividido entre a candidata e Sampaio da Nóvoa.

Depois de ter deixado algumas farpas este domingo à noite, em Arcos de Valdevez, hoje foi mais direta nos recados que fez aos socialistas que estão do outro lado, isto é, do lado do ex-reitor da Universidade de Lisboa.

"Era só o que mais faltava agora ser mais importante apoiar socialistas do que apoiar independentes."


Maria de Belém insistiu na ideia de que esteve sob "escrutínio público" durante 40 anos. E defendeu que não é possível saber como é que as pessoas "próximas" da sua "área política", mas que "nunca desempenharam" funções de relevo, vão desempenhar agora o mais alto cargo do país

Por isso, não tem dúvidas: "O voto útil é na minha candidatura".

A candidata nunca tinha sido tão clara nas palavras. E a sua campanha nunca tinha estado tão acesa.

De Bragança a comitiva saiu para outra cidade do interior, a Guarda. Aqui, visitou outro politécnico e a Cooperativa para a Educação e Reabilitação de Cidadãos Inadaptados. 

Maria de Belém quer ser uma Presidente da República que investe no desenvolvimento de todo o território.

Nona etapa da volta ao país concluída. Amanhã é tempo de regressar a Lisboa. Ao final do dia haverá um último debate com todos os candidatos presidenciais antes das eleições de 24 de janeiro. Com a corrida à Presidência a aproximar-se do final e as sondagens a atribuirem um empate técnico entre Belém e Nóvoa, a discussão prevê-se acesa e poderá mesmo influenciar o eleitorado da área socialista que está dividido entre os dois candidatos. O eleitorado que Belém, nesta última metade da campanha, tanto quer conquistar.