“La Partida” foi a segunda música a soar das guitarras portuguesas no Conservatório de Música de Viseu. A música não encaixa em Marcelo, que quer ficar na corrida com a sua própria letra e ganhar à primeira volta nas presidenciais. A etapa deste sábado foi na cidade que ficou colada à imagem do Cavaquistão. O ditado popular até diz “em Roma, sê romano”. Mas o candidato é que manda: foi Marcelistão. E voltou a querer demarcar-se do atual Presidente. Mais no estilo, do que nas ideias, ainda muito por aflorar em matéria de comparações. 

Esse tête-à-tête, fá-lo sem problemas noutro campo: o da literatura.

 
Marcelo sempre escreveu à direita na política. Tem tentado passar a imagem de uma candidatura independente do seu PSD. Mas os apoios têm chegado, à vez, mais disfarçadamente, mas têm chegado. Hoje o presidente da câmara de Viseu, o social-democrata Almeida Henriques, esteve sempre, sempre a seu lado. E ainda contou com o apoio do vice-presidente Parlamentar do CDS-PP. Hélder Amaral, depois do almoço.

Foi quase a entrar na, nem de propósito, Rua Direita, que um homem de chapéu à marinheiro fez continência com voz a alto e bom som. “Temos de rodar esta tralha toda que aí anda. Saúdinha! Viva o professor Marcelo… Caetano”.

Rua abaixo, o calor do apoio, esse genuíno, aqui e ali. Uma comerciante que fechou a loja de propósito para um beijinho e uma selfie, várias gerações juntas para uma foto de família. Não foi uma arruada cheia de gente e os termómetros também não ajudaram. Estava um frio de rachar.

Mas houve o embalo por várias vezes repetido da vitória – até uma bebé com esse nome encontrou pelo caminho.“Vou ganhar, ah pois é”, respondia a uma apoiante ainda pela manhã, no mercado da fruta da cidade. Alguns avisos também: “Não nos desiluda”. “Pode contar, pode contar, não vos vou desiludir”.

E pelo menos duas pessoas falaram-lhe no BES, que lhes deu cabo da vida. Como tem sido seu hábito, puxou da “campanha dos afectos” para reconfortar e pôr as coisas do lado da Justiça que, não tem “dúvidas”, vai acontecer. Outras pessoas surpreendiam-se pela campanha mais modesta: “Não me dão uma canetita? Nada? Ai, que miséria”.

Se a crise não descola dos portugueses, Marcelo quer descolar de Cavaco. E fez questão de fazê-lo em duas situações ao longo do dia. A primeira, em resposta aos jornalistas que, na terra do Cavaquistão, não resistiram a fazer a pergunta de uma característica que os diferenciasse. Logo enumerou… várias:

“Somos diferentes na formação, no percurso, no temperamento, na personalidade, na idade, somos gerações diferentes. E, portanto, tudo isso faz estilos de presidência muito diversos. O país neste momento está porventura mais à espera de um Presidente mais extrovertido, se quiser, não é? Mais extrovertido”

 


No Instituto Politécnico de Viseu, numa sessão pública com cerca de 400 pessoas que finalizou um dia de passeio a pé pela cidade, foi ele próprio quem voltou à carga.“O estilo é diferente, mais informal, mais coloquial, mais próximo, será, mas o tempo é diferente. Exige esse estilo”

Os tempos também mudaram, argumentou ainda, para defender que “o rito da autoridade” que se associa ao Presidente é importante, mas “a proximidade é mais urgente”.  

Já em relação ao pensamento político de Cavaco, Marcelo não elencou diferenças. Não quer dizer que não as tenha, mas certo é que nada disse. Cingiu-se apenas, como tem feito, à figura presidencial em si: que deve ser um “árbitro”, que não precisa de mais poderes do que aqueles que a Constituição já define, e que deve ser “moderado”. Disse ontem, repetiu hoje, a piscar o olho ao centro. Palavra sua:

“Dirão: ’Mas isso é muito ao centro, muito moderado?’ Eu sou um moderado e acho que Portugal precisa de moderação na Presidência”


Tal como ajeitou com precisão a moldura de um quadro no Museu Grão Vasco, Marcelo ajeita o discurso para abranger um eleitorado o mais vasto possível. Também por isso recusou um Marcelistão. “Não há, nem deve haver. Deve ser Portugalistão”. Resposta sempre na ponta da língua. Isso e sentido de humor nunca lhe faltam.