A pele dela é enrugada, mas a voz firme: “Já não vai à segunda”.  Ele: “Eu acho que não… A senhora é que percebe disso”. “Pode ter a certeza!”: palavra de velhinha, que sonhou com vitória de Marcelo Rebelo de Sousa à primeira volta nas eleições presidenciais.
 
O professor recebeu a ' notícia' assim que chegou à Santa Casa da Misericórdia do Barreiro. Estava ele a falar com outros idosos, quando sentiu o toque no braço, atrás de si. Com nem metro e meio de altura, não faltou segurança àquela mulher. Quem sabe se por, como contou depois, beber café e bagaço todos os dias. Está rija.

 
O candidato já visitou pelo menos três misericórdias e outras tantas instituições ligadas ao setor social nesta campanha, que ainda não acabou. Ele próprio tem lembrado a sua vida dedicada a estas causas. E entende que as respostas sociais que existem não são suficientes: “Isso é evidente que não são. O problema da solidão e o problema da pobreza obriga a outras respostas. Mesmo estas instituições têm serviços próprios de acompanhamento domiciliário, mas é insuficiente”.
 

Uma coisa é a teoria, outra...

 
Marcelo mostrou-se do lado da medida tomada pelo anterior Executivo de, "não tendo o Estado estruturas", valorizar o papel do setor social. " O Governo entendeu, e eu penso que entendeu bem. Só que nem sempre teve capacidade para apoiar. Onde pôde apoiou, onde não pôde não apoiou. Foi essa rede de misericórdias e IPSS que permitiu que a crise não fosse, apesar de tudo, tão grave ou não fosse mais grave aquilo que foi. Aguentaram a situação”.

Ora, o Governo PS logo se apressou a anular a passagem dos hospitais de Santo Tirso e de São João da Madeira para a alçada das Santas Casas de Misericórdia locais, revertendo assim uma decisão tomada ainda no tempo de Passos e Portas.

Marcelo, algo prudente na resposta aos jornalistas, ainda dá o benefício da dúvida a António Costa, até porque no seu entender o programa de Governo “aposta muito” no setor social e não vê “razões para desconfiar" do contrário. "Vamos esperar para ver”. 
 
Seja como for, fica já o aviso de Marcelo. É preciso decidir com os pés bem assentes na terra.
 

“Acho que vai haver pragmatismo e realismo de reconhecer ao setor social e dentro dele às misericórdias uma importância que ele tem. Sabem que a vida é assim: muitas vezes há certas ideias, ou certas teorias, ou certos princípios,  depois há a realidade. A realidade obriga que aquilo que em teoria é uma coisa, e na prática seja diferente”.

 
O mesmo em relação à ideia de acabar com as cantinas sociais. O professor defende que há uma necessidade a satisfazer e que tem de ser satisfeita dê por onde der. Espera para ver que outras soluções tem o Governo: “Se houver outra realidade que cumpra essa missão... É preciso é que haja”. 

Estes problemas dizem-lhe muito, como tem querido mostrar nesta campanha. Se for eleito, uma primeira promessa terá de cumprir: beber um bagaço com a velhinha que lhe deu a vitória antecipada. Para ela, deixa o café.