O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, considerou esta sexta-feira que o Porto é "de algum modo o berço da liberdade e da democracia", afirmando que terminar as cerimónias de posse na cidade é "uma homenagem ao Porto".

Aqui vir e aqui estar hoje a terminar as cerimónias de posse iniciadas em Lisboa é, a dois títulos, simbólico. É simbólico como homenagem ao Porto, ao seu passado, ao seu presente e ao seu futuro. É simbólico como sublinhado de virtudes nacionais num tempo atreito eadesânimos, desilusões e desavenças", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, nos Paços do Concelho.

Para o Chefe de Estado, a história da cidade "enche o Porto de glória", mas "o presente continua a fazê-lo como terra de gente de carácter, de liberdade, de convivência aquém e além-fronteiras".

"O Porto é terra geradora de elites em todos os domínios", designadamente no mundo da economia como na Universidade, na cultura como nas artes e no desporto, disse, apontando os nomes de Manoel de Oliveira, Agustina Bessa-Luis, Souro Moura, Pedro Abrunhosa, Siza Vieira, Vasco Graça Moura e Daniel Serrão como exemplos desse "património imperecível".

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, "a expressão ou matriz de uma maneira de ser" dos cidadãos do Porto "não se esbateu com o tempo, antes se reforçou ganhando as camadas da nobre pátina que só o tempo sabe conceber".

O Presidente da República afirmou ainda que "é tempo de falar menos" do que deprecia Portugal e "falar mais" do que o que o país tem de melhor.

 

Dos nossos defeitos falamos nós e falam outros por nós, em demasia", disse, "Portugal precisa de quem recorde a coragem e a tenacidade dos portugueses".

Apontando o Porto como uma cidade que "nunca cedeu ao desalento, ao pessimismo, ao derrotismo", o chefe de Estado afirmou ser "essencial" para todos "este sublinhado de virtudes, assumidos sem complexos e com desassombro".

O que nos divide e diminui conhecemos todos, das ideias aos factos, ao comprazimento com as previsões erradas ou que vão errar, com os caminhos outrora sem saída ou que a não terão no futuro, como o júbilo perante as agruras ou os insucessos dos adversários", referiu, sublinhando: "é tempo de falar menos do que nos deprecia e falar mais do que nos valoriza".

Marcelo apelou ainda aos portuenses para que "jamais troquem a liberdade, o seu rigor no trabalho, os seus gestos de luta e de coragem por qualquer promessa de sebastianismo político ou económico".

O futuro é obra de todos, não é dádiva de ninguém", disse.

O chefe de Estado pediu ainda para que "nunca se rendam à ideia errada de que quase nove séculos de história ou de poder são obra do acaso, que é uma fatalidade que Portugal esteja votado a ser pobre, dependente, injusto, sem lugar para a vontade dos portugueses".

Temos de acreditar em nós próprios e no que valemos e podemos" para que "as crises deixem de ser o único horizonte possível" e "para que seja possível, ao menos de quando em vez, abrir caminho ao sonho"

No seu discurso, citando os escritores Sophia de Mello Breyner e Miguel Torga, Marcelo referiu características atribuídas às "gentes" do Porto, como "amor à liberdade, exemplo de trabalho e gosto de luta e de combate".

 

"Peço-lhe que lute contra a desigualdade e injustiça"

O presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, pediu ao Presidente da República que “lute contra a desigualdade e a injustiça” e defenda uma mudança de mentalidades para “um Portugal menos centralista”.

Com a sua voz e a sua autoridade, peço-lhe que lute contra a desigualdade e injustiça. Erga também a sua voz em defesa de um Portugal menos centralista, um Portugal que deixe enfim respirar os que querem ousar, arriscar, fazer mais e melhor. Estamos a falar de muito mais do que um centralismo de interesses. Estamos a falar de mentalidades e da sua necessária mudança”, afirmou o autarca independente na receção formal ao novo PR, que termina esta sexta-feira no Porto três dias de tomada de posse.

Rui Moreira alertou ainda que Portugal “está mais assimétrico e, desgraçadamente, mais desigual”, porque o país “são todos os portugueses, mas são ainda muito diferentes as condições em que vivem e aquilo a que podem aceder”.

Portugal é plural e diverso e, sabe-o muito como poucos, é muito mais do que o Palácio de Belém e outras sedes de órgãos de soberania. Os portugueses são das cidades, são do litoral e do interior. Os portugueses são os algarvios, são os transmontanos, os minhotos e os portuenses”, frisou Moreira, concordando com Marcelo Rebelo de Sousa quando este disse, no discurso da tomada de posse de quarta-feira, em Lisboa, que “assistimos ainda a chocantes diferenças entre grupos, regiões e classes sociais”.

O autarca notou que hoje “é um dia de festa”, pelo que quis transmitir ao novo PR a sua “esperança”, pedindo a Marcelo que seja “presidente de todos aqueles que se dizem, com orgulho, portugueses”.

Quanto ao centralismo, Rui Moreira pediu ao 19.º PR português que intervenha ao nível das mentalidades.

Aí, a dificuldade que tem pela frente é ainda maior, porque interfere com aculturações ancestrais, porque é interior, porque esta pulsão pelo centro, em detrimento de tudo o resto, quase sempre se dissimula e embeleza para não ser notada”, criticou o independente eleito para a Câmara do Porto em 2013.

Moreira disse ainda a Marcelo Rebelo de Sousa acreditar que “é na proximidade” que o PR vai desenvolver o seu mandato.

Ao longo do dia, irá sentir que esta cidade, liberal e aberta, tolerante e abrangente, está próxima de si. O Porto saberá sempre acolhê-lo e incitá-lo a continuar na jornada de todos unir”, sublinhou.

"Um grande abraço, com muita saúde" dado por Manuel do Laço

O Presidente da República foi recebido no Porto com palmas e gritos por “Marcelo”, tendo parado na rampa de acesso à Câmara para receber “um abraço” de Manuel do Laço, um adepto do Boavista Futebol Clube.

Marcelo Rebelo de Sousa chegou à Praça General Humberto Delgado, junto aos Paços do Concelho, às 11:00 em ponto, foi recebido pelo presidente da Câmara do Porto, acenou às centenas de populares que o aguardavam, ouviu o Hino Nacional e passou revista à Guarda de Honra.

Quando seguia para o edifício municipal, o novo PR parou a meio da rampa de acesso à porta principal da Câmara para dar um aperto de mão ao conhecido adepto do Boavista, vestido a rigor com o padrão axadrezado do clube, que lhe quis transmitir “um grande abraço, com muita saúde” e dizer que “está a trabalhar muito bem”.

O PR foi, depois, recebido pelo presidente da Assembleia Municipal do Porto, Miguel Pereira Leite, e ouviu sorridente duas músicas interpretadas pela Orquestra Juvenil da Bonjóia, a última das quais Viva La Vida, dos Coldplay.

Marcelo Rebelo de Sousa encerra hoje no Porto a cerimónia da tomada de posse iniciada na quarta-feira, com visitas à Câmara, ao bairro do Cerco e a uma exposição sobre o vereador da Cultura que morreu em novembro.

Na primeira vez em que um PR estende ao Porto as formalidades ligadas à sua tomada de posse, Marcelo Rebelo de Sousa é recebido oficialmente na Câmara, onde discursa pelas 11:30, vai à Galeria Municipal para ver a exposição “P. - uma homenagem a Paulo Cunha e Silva, por extenso” e assiste a uma exibição de hip hop no bairro do Cerco, onde também visita um Centro de Dia.