Marcelo Rebelo de Sousa não tem dúvidas: o país não pode continuar a viver em campanha eleitoral, num clima de crispação entre as forças políticas que não deixa margem para o diálogo. O primeiro discurso de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República nas comemorações do 25 de Abril, no Parlamento, ficou, assim, marcado por vários recados aos partidos e por um forte apelo aos consensos. Uma intervenção que mereceu aplausos de pé dos partidos à direita (PSD e CDS) e do PS. À semelhança do que aconteceu no dia da tomada de posse, os deputados do BE e do PCP permaneceram sentados.

"Não, Portugal não pode nem deve viver sistematicamente em campanha eleitoral."

Na sessão solene que, esta segunda-feira, assinalou o 42.º aniversário da "Revolução dos Cravos", o chefe de Estado deixou várias críticas e recados às forças políticas que constituem a Assembleia da República. Marcelo Rebelo de Sousa sublinhou que, neste momento, "a unidade essencial entre os portugueses é questionada por duas distintas propostas de governo", referindo-se ao confronto político entre os partidos da esquerda e os da direita.

O Presidente da República afirmou que o "pluralismo político" é "estimulante", mas que "não impede consensos sectoriais". E defendeu que a estabilidade política é, de resto, crucial para a "estabilidade económica e social". Marcelo Rebelo de Sousa quer, por isso, que se "troquem as emoções pelo bom senso".

"Unamo-nos no essencial, sem negarmos a riqueza do confronto. [...] Troquemos as emoções pelo bom senso."

O chefe de Estado destacou que o futuro do país não passa por "pessimismos anti-democráticos" nem por "populismos anti-europeus".

"A solução não passa por pessimismos anti-democráticos nem por populismos anti-europeus."

Perante os deputados da Assembleia da República e vários ilustres convidados como os antigos chefes de Estado Ramalho Eanes ou Cavaco Silva, o Presidente da República apontou os problemas que persistem no país, como as assimetrias sociais e a pobreza, e traçou os desafios para o desenvolvimento, para a coesão territorial e quanto à posição de Portugal no quadro europeu.

Marcelo Rebelo de Sousa frisou que o Portugal do desenvolvimento "tem de dar horizontes de esperança" e que "o Portugal da coesão territorial deve ser mais corajoso", combatendo "a pobreza que nos deve envergonhar."

"O Portugal que acredita na Europa tem de lutar por uma Europa menos confidencial, menos passiva, mais solidária, mais atenta às pessoas, que parece aprovar nos factos o oposto daquilo que apregoa nos ideais. O Portugal do desenvolvimento tem de dar horizontes de esperança que não sejam o ir de crise em crise ate à incerteza total [...]. O Portugal da coesão territorial deve ser mais corajoso, recuperar a classe média e combater as assimetrias e a pobreza que nos deve envergonhar."

Salientou ainda que o seu mandato é, por natureza, "mais longo e mais sufragado do que os mandatos partidários", lembrando que "não depende de eleições intercalares".

O discurso do Presidente da República fechou as intervenções desta sessão solene, marcadas pela troca de farpas entre os partidos de esquerda e os de direita.

As palavras de Marcelo Rebelo de Sousa foram bem recebidas pelas forças políticas que, no final, elogiaram a sua intervenção. Nos partidos à direita, há disponibilidade para consensos, mas não a qualquer custo. Já a esquerda leu nas palavras de Marcelo um incentivo para que a oposição tenha uma posição mais construtiva.