O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, disse este sábado em Pedrógão Grande que Portugal aguarda “as consequências que o Governo irá retirar” do incêndio na região Centro no qual morreram 64 pessoas.

Portugal aguarda com legítima expectativa as consequências que o Governo irá retirar de uma tragédia sem precedentes na nossa história democrática”, afirmou o chefe de Estado, que nesse momento recebeu um forte aplauso das cerca de 200 pessoas presentes na sala.

Marcelo Rebelo de Sousa fez esta declaração, tendo em conta “o anúncio feito pelo senhor primeiro-ministro”, António Costa, relativamente “a uma reflexão ponderada e exaustiva baseada no teor do relatório” da Comissão Técnica Independente, divulgado e apresentado à Assembleia da República, na quinta-feira.

O chefe de Estado intervinha na abertura do primeiro Encontro para a Autoproteção e Resiliência das Populações, organizado pela Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande (AVIPG), em que fez alguns comentários ao documento, na Casa Municipal da Cultura de Pedrógão Grande.

Costa responde

Confrontado com as declarações do Presidente da República, o primeiro-ministro, António Costa, afirmou, em Coimbra, que a grande responsabilidade do Governo "é dar execução àquilo que são as recomendações" da comissão técnica independente.

Para o primeiro-ministro, o Presidente da República "reiterou aquilo que o Governo tem dito: de que é fundamental retirarmos agora todas as ilações que há a retirar do relatório da comissão técnica independente".

A grande responsabilidade política que o Governo tem hoje é dar execução àquilo que são as recomendações desta comissão técnica independente", disse.

Questionado pelos jornalistas, António Costa afirmou uma vez mais que não está em cima da mesa a demissão da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa.

Relatório da Comissão

A Comissão Técnica Independente nomeada para analisar os incêndios rurais de junho na região Centro, em particular o fogo que deflagrou em Pedrógão Grande, entregou na quinta-feira no parlamento o seu relatório final.

O documento, que analisa incêndios em 11 concelhos dos distritos de Leiria, Coimbra e Castelo Branco ocorridos entre 17 e 24 de junho, refere que, apesar de o fogo de Pedrógão ter tido origem em descargas elétricas na rede de distribuição, um alerta precoce poderia ter evitado a maioria das 64 mortes registadas.

Além disso, acrescenta, “não foram mobilizados totalmente os meios disponíveis” no combate inicial e houve falhas no comando dos bombeiros.

A GNR fica, por outro lado, ilibada de direcionar carros para a Estrada Nacional 236-1, onde ocorreram cerca de metade das mortes.

O documento aponta falta de conhecimento técnico no sistema de defesa florestal e falta de preparação dos atuais sistemas de combate às chamas para as alterações climáticas, confirmando, por outro lado, falhas de comunicação do Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP).

O primeiro-ministro, António Costa, afirmou, na sequência da divulgação do relatório, que o Governo assumirá todas as responsabilidades políticas, se for caso disso.

"Falhou toda uma estrutura"

Este sábado, em Pedrógão Grande, no primeiro Encontro para a Autoproteção e Resiliência das Populações, organizado pela Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande (AVIPG), a presidente desta organização considerou ter falhado toda a estrutura e a resposta no incêndio de 17 de junho que vitimou 64 pessoas.

O que se viveu em Pedrógão Grande no dia 17 de junho de 2017 foi algo inominável, irrepetível na sua brutalidade. Falhou toda uma estrutura e resposta naquele dia e naquele pedaço de Portugal", afirmou a presidente da Associação de Apoio às Vítimas de Pedrógão Grande (AAVPG), Nádia Piazza.

Falhou um estado de coisas e o estado da coisa. Falharam homens e mulheres à frente e atrás das suas responsabilidades. Veio a nu, de forma crua e dura, a inoperância e a incompetência das entidades no auxílio daqueles que desesperaram por proteção e socorro", acrescentou.