Era a paragem que faltava a Marcelo Rebelo de Sousa, pelo menos por agora. Em matéria de prioridades externas, o Presidente da República já conseguiu completar um itinerário específico, a julgar pelo discurso de tomada de posse, no passado dia 9 de março:

Democracia que se enobrece com a presença de três ilustres convidados estrangeiros que nos honram, ao aceitarem os convites pessoais que formulei, correspondentes a coordenadas essenciais da nossa política externa”

Nesta ocasião, os “três ilustres convidados estrangeiros” saudados por Marcelo foram Sua Majestade, o Rei Filipe VI de Espanha, Jean-Claude Juncker, Presidente da Comissão Europeia, e Filipe Nyusi, Presidente de Moçambique.

E essas “coordenadas essenciais” começaram a ser cumpridas uma semana depois, quando o novo Presidente esteve em Madrid para se encontrar com o Rei Filipe VI. A 13 de abril último, seguiu-se outra deslocação, desta vez a Estrasburgo, onde privou com os eurodeputados portugueses e discursou no Parlamento Europeu. Depois de Espanha, ficava assim vincado o compromisso com a União Europeia. Compromisso esse reiterado, aliás, ainda esta segunda-feira, por ocasião das celebrações do Dia da Europa.

Na semana passada, fechou-se o trajeto antecipado na tomada de posse, com a Visita de Estado a Moçambique – o mesmo país onde o pai de Marcelo, Baltasar, foi Governador-geral, entre 1968 e 1970.

Durante a viagem de quatro dias, muito ao seu estilo, Marcelo esteve um pouco por todo o lado, encontrando-se com o homólogo moçambicano e protagonizando mais um momento insólito, no qual mostrou dotes de dançarino durante a visita à escola portuguesa de Maputo.

Marcelo Rebelo de Sousa dançou com um grupo de alunos da Escola Portuguesa de Maputo (Lusa/João Relvas)

Mas, danças à parte, o que significa esta visita de Marcelo a Moçambique?

Embora a definição e execução da política externa esteja a cabo do poder executivo, como salientado pela Constituição, Daniel Marcos, professor convidado do departamento de Estudos Políticos da Universidade Nova de Lisboa, destaca a vontade de Marcelo em "recuperar o papel do Presidente, enquanto representante do Estado português e, nesse sentido, como ator de política externa". Assim, esta deslocação foi “articulada em estreita colaboração com o governo”, sobretudo no sentido de fortalecer "uma das prioridades da política externa do executivo", que passa pelo reforço das relações com os membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), de acordo com o investigador.

A Presidência de Marcelo Rebelo de Sousa parece indicar a vontade de recuperar o papel do presidente enquanto representante do Estado Português e, nesse sentido, como ator de política externa

Por outro lado, a agitação interna que Moçambique atravessa significa que o governo e o Presidente estão a procurar “potenciar o papel de Portugal como eventual mediador na questão, sem nunca impor esse estatuto”, julga Daniel Marcos, especializado na área de política externa portuguesa.

Finalmente, o investigador da Universidade Nova de Lisboa lembra que "por razões familiares, Marcelo tem bons contactos em Moçambique". Ora, sendo esta uma fase inicial do mandato, o novo Presidente "procura deixar uma marca distinta em relação ao que foi o papel do seu antecessor", conclui.