Marcelo Rebelo de Sousa vai jurar a Constituição original de 1976, perante 550 convidados no Parlamento decorado para a posse do novo Presidente com cerca de duas mil rosas com as cores da bandeira nacional.

Tal como há dez anos, a cerimónia de tomada de posse do novo Chefe de Estado, no dia 9 de março, terá a particularidade de dispor na mesa da Assembleia da República três cadeiras de Presidente, mas desta vez conta com uma inédita acreditação: a rádio de Celorico de Basto.

A Constituição original de 1976, datilografada e encadernada a vermelho com letras douradas, será o exemplar da Lei Fundamental usado para Marcelo Rebelo de Sousa jurar cumprir e fazer cumprir.

De acordo com a Lusa, toda a Assembleia da República estará mobilizada para o acontecimento, de tal forma que os bares vão abrir mais cedo, pelas 07:30, mas a grande responsabilidade recai na divisão de Protocolo e no gabinete de Relações Públicas, que se regem pelo chamado cerimonial, um guião, com regras e horários discriminados mas que sofre adaptações.

"A base de todas as posses encontra-se escrita há muito tempo, mas é evolutivo. Vamos buscar o cerimonial de há dez anos e adaptar a algumas questões e circunstâncias colocadas no 25 de Abril", contou à Lusa Manuela Azóia, do Protocolo da Assembleia da República.

A cerimónia do 25 de Abril é o grande exercício de cerimonial anual do parlamento e há especificidades importantes da tomada de posse do Presidente que na primeira já existiram e depois caíram em desuso: a sessão de cumprimentos é a mais relevante.

A ordem de precedência de cumprimentos dos convidados está escrita a ‘bold' no cerimonial e foi nesse passo que há cinco anos o então primeiro-ministro José Sócrates protagonizou uma falha de protocolo, ao atrasar-se para ser o primeiro a cumprimentar o Presidente.

O exercício de evolução do guião para quarta-feira que teve de fazer Rita Ferreira, diretora do Gabinete de Relações Internacionais e Protocolo, levou em conta a inexistência de cônjuge do Presidente eleito que vá tomar o lugar da mulher do Presidente cessante, Maria Cavaco Silva.

A questão tem sido muito mediatizada mas no parlamento resume-se a um passo: "O momento em que os dois Presidentes da República trocam de posição. Esse momento não tem reflexo relativamente à tribuna em que está a anterior primeira-dama, porque não há nova primeira-dama para trocar. É a tal adaptação à realidade concreta", contou Rita Ferreira à Lusa.

Particularmente envolvido na cerimónia devido ao grande afluxo de imprensa a querer cobrir o evento é também o Gabinete de Relações Públicas, chefiado por Vítor Pires da Silva, que ainda não dispõe do total de meios de comunicação social acreditados, entre imprensa estrangeira e publicações que normalmente não seguem os trabalhos parlamentares mas estão presentes nesta cerimónia, as chamadas revistas ‘cor-de-rosa’.

Uma coisa é certa, a rádio de Celorico de Basto quis acreditação e os pedidos são em tal volume que justificam que a sala do Senado vá servir como desdobramento da sala das sessões para os jornalistas que não tiverem lugar na bancada de imprensa acompanharem a cerimónia.

Quanto à indumentária a usar, Rita Ferreira é taxativa: "Não há indicação de ‘dress code', confiamos no bom senso de cada um. Do nosso lado, será o mais discreto possível".

Mês e meio até à posse com reuniões e uma promessa cumprida

Marcelo Rebelo de Sousa teve uma agenda preenchida enquanto Presidente eleito, que foi além das habituais reuniões institucionais e incluiu várias intervenções públicas e uma visita para levar bagaço e chá a uma idosa.

As primeiras reuniões de Marcelo Rebelo de Sousa depois de eleito foram no dia 28 de janeiro, quatro dias após a eleição, uma audiência seguida de almoço com o Presidente cessante, Cavaco Silva, um encontro com o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues e um jantar com o primeiro-ministro, António Costa.

Quando foi eleito em 2006, o primeiro encontro oficial de Cavaco como Presidente eleito também foi com o seu antecessor, Jorge Sampaio, uma semana depois da eleição.

Em comum com a agenda de Aníbal Cavaco Silva antes de tomar posse no primeiro mandato, Marcelo Rebelo de Sousa teve várias reuniões institucionais e o lançamento de um livro com fotografias da campanha eleitoral.

O segundo encontro entre António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa ocorreu no dia 16 de fevereiro, no Palácio de Queluz, onde o Presidente eleito trabalhou até à posse. O ministro das Finanças, Mário Centeno, e o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, foram também recebidos pelo próximo Presidente da República.

A última reunião pública com o primeiro-ministro foi no passado dia 2, com o Orçamento do Estado para 2016 em cima da mesa.

Para além da agenda institucional, a agenda pública de Marcelo Rebelo de Sousa antes da posse incluiu, no dia 29 de fevereiro, uma visita a uma idosa na Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, onde entrou com uma garrafa de bagaço e um pacote de chá de camomila para cumprir uma promessa feita na campanha eleitoral.

Quanto a outras declarações públicas, Marcelo fez-se ouvir mais neste período de transição do que o seu antecessor. Manifestou pesar pelas mortes de Jaime Camacho, primeiro presidente do Governo Regional da Madeira e do filósofo italiano Umberto Eco, e felicitou a realizadora Leonor Teles pelo prémio ganho no Festival de Cinema de Berlim.

Entre ser eleito e tomar posse, Cavaco Silva encontrou-se com os ministros da República para a Madeira e Açores, o então procurador-geral da República, o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas e o presidente do Tribunal de Contas.

Marcelo Rebelo de Sousa já anunciou que irá reconduzir os representantes da República das regiões autónomas.

O sucessor de Cavaco Silva anunciou ainda ter convidado para o Conselho de Estado figuras como o ex-primeiro-ministro António Guterres, o ensaísta Eduardo Lourenço, o antigo dirigente do CDS-PP António Lobo Xavier, o ex-presidente do PSD Luís Marques Mendes e a presidente da Fundação Champalimaud, Leonor Beleza.

Na sexta-feira, dia 4, Marcelo Rebelo de Sousa marcou presença na tese de doutoramento do vice-presidente do CDS-PP e eurodeputado Diogo Feio, na Universidade do Porto.

No dia 29 de fevereiro, Marcelo Rebelo de Sousa participou como orador na conferência de aniversário da TSF, reiterando ser "apaixonado pela comunicação social" e reconhecendo ser "praticamente nula" a probabilidade de voltar ao setor.