O Presidente da República aproveitou esta sexta-feira uma visita ao Mercado Municipal de Maputo para negar "tentações presidencialistas", respondendo assim à porta-voz do Bloco de Esquerda (BE), que o acusa de "tentativa de presidencialização do regime político".

"Sou um pacificador, um pacificador e que não tem tentações presidencialistas", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, à conversa com um homem mais velho que tinha uma bengala de pau-preto, acrescentando que, "portanto, não usa estes instrumentos, usa a persuasão".

Na moção de orientação à X Convenção do BE "A Força da Esperança", que tem como primeira subscritora a porta-voz deste partido, Catarina Martins, e que foi divulgada na quarta-feira, Marcelo Rebelo de Sousa é acusado de "tentativa de presidencialização do regime político".

O texto desta moção, que tem subscritores das principais tendências do BE, essa tentativa "marca o início do mandato do novo Presidente da República", tendo como "a chantagem europeia" como pano de fundo.

As suas pressões para 'acordos de regime' visam repor as relações históricas e o alinhamento à direita dos partidos", alegam.

Depois do mercado, Marcelo Rebelo de Sousa visitou a escola profissional São Francisco de Assis, que conta com o apoio da cooperação portuguesa desde 2001, onde voltou a este tema, enquanto aprendia a fazer um tijolo de argamassa.

"Força, força", exclamou. "Mas eu sou um homem de afetos, não presidencialista, portanto, não posso usar muita força", acrescentou.

Na padaria desta escola profissional, enquanto amassava pão com os alunos, o chefe de Estado voltou a deixar recados para Portugal: "Em tempo de crise o pão tem de esticar, tem de esticar para a esquerda e para a direita, que é o que eu tenho estado a tentar fazer, a esticar para que se entendam".

Nem sempre é fácil. Por exemplo, a esquerda aqui está mais renitente do que a direita, que já está mais suave", observou.

Na moção que de estratégia que vai levar ao Congresso do PS, entregue na quinta-feira, o secretário-geral do PS e primeiro-ministro, António Costa, também se pronuncia sobre o regime político português, fazendo uma defesa cerrada da componente parlamentar do sistema de Governo.

A componente parlamentar do nosso sistema de Governo é não apenas essencial, mas em larga medida dominante, traduzindo-se não apenas no papel do parlamento na legitimação política e na formação do Governo, mas também no facto de o executivo responder politicamente, e em exclusivo, perante a Assembleia da República, a cuja fiscalização política naturalmente se submete", salienta.

Neste ponto, a moção de António Costa contém uma crítica direta a Cavaco Silva: "O confronto ensaiado pelo anterior Presidente da República com o parlamento acabado de eleger e o falhanço da sua tentativa de impor uma solução governativa de direita, reconhecidamente contrária à vontade da maioria dos portugueses e destituída de apoio parlamentar, evidenciou a força da componente parlamentar".