O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, sublinhou hoje que não é a ausência de vítimas mortais que traz “consolo” à população, recusando entrar em “triunfalismos” injustificados, em relação ao incêndio que deflagrou em Monchique.

O que eu sugeriria humildemente era o seguinte: sem triunfalismos, que não se justificam, sem juízos negativos definitivos já, mas sim preocupações, desabafos e sugestões para o futuro. Vamos terminar esta batalha, esta guerra e esta época [de incêndios]”, afirmou o chefe de Estado.

Marcelo Rebelo de Sousa respondia assim, à saída de um ‘briefing’ no posto de comando da Proteção Civil, instalado no centro da vila de Monchique, a alguns populares e um vereador da autarquia que o questionaram sobre a apreciação feita na sexta-feira pelo Governo à operação de combate ao incêndio, além de se queixarem de falta de coordenação, de comunicações e de meios parados, por exemplo.

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Nesse dia, o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, afirmou que “a grande vitória” da operação de combate ao incêndio de Monchique é a inexistência de vítimas mortais, acrescentando estar satisfeito por poder “celebrar” o facto de ninguém ter morrido.

Questionado depois pelos jornalistas sobre estas declarações, o Presidente da República recusou falar sobre o que, a seu ver, “não é essencial”.

“É prematuro, neste momento, estar a olhar para uma batalha que está perto da conclusão, mas que não está concluída, e uma guerra que está longe de estar concluída e fazer um balanço daquilo que aconteceu globalmente”, sublinhou.

Comissão independente permanente no Parlamento 

Ainda enquanto falava com populares à saída de um ‘briefing´ no posto de comando da Proteção Civil em Monchqiue, o Presidente da República propôs a criação de uma “comissão independente permanente”, sob alçada da Assembleia da República, para fazer a avaliação da época de incêndios e “ajudar” o Governo, o próprio chefe de Estado e instituições.

“[Esta comissão] ajuda o Governo, ajuda o Presidente da República e ajuda todas as instituições”, afirmou.

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, a comissão poderia debruçar-se sobre as ignições e fogos registados, e analisar se a “forma de prevenção” ou se as respostas resultaram ou não.

Marcelo Rebelo de Sousa sugeriu que a comissão permanente seja a mesma que existiu em relação aos grandes incêndios de junho e outubro de 2017 e que vá “acompanhando, em diálogo” com a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais, as instituições governamentais e outras, “o que aconteceu ano após ano”.

A comissão técnica independente criada no ano passado para analisar aqueles fogos, nomeada pela Assembleia da República e que produziu dois relatórios, foi liderada pelo investigador João Guerreiro, antigo reitor da Universidade do Algarve.

Já se percebeu que o grau de exigência dos portugueses é muito alto. Já se percebeu que as alterações climáticas são cada vez mais complexas. Já se percebeu que o que sucede levanta problemas cada vez mais complexos. Vamos fazendo o balanço e aprendendo a lição ano após ano”, acrescentou, já em declarações aos jornalistas.

As críticas do vereador e o apelo de Marcelo à compreensão

Nas queixas que ouviu de populares e de um vereador em relação às operações de combate ao fogo em Monchique, o Presidente da República lembrou que a prioridade era proteger as populações, apelando à compreensão.

À saída do ‘briefing’ no posto de comando da Proteção Civil, instalado no centro da vila, Marcelo Rebelo de Sousa foi interpelado por várias pessoas, entre as quais o vereador da Câmara de Monchique com o pelouro das obras públicas e particulares.

José Chaparro disse ao chefe de Estado que as pessoas eram retiradas “a mal” das suas casas pela GNR e apontou que “máquinas de rasto, militares e civis” estiveram três dias sem entrarem ao serviço por "falta de indicações" do comando da Proteção Civil.

Houve descoordenação total. As pessoas que estavam à frente das operações nos ‘briefings’ não eram da terra e não conhecem o terreno. Andava tudo completamente às cegas”, afirmou.

Um empresário, cujas propriedades e casas "arderam", queixou-se que na estrada do Alferce não ter visto qualquer carro dos bombeiros a ajudar ao combate e também deixou críticas à atuação dos elementos da GNR durante a evacuação das localidades.

“No geral estiveram bem, mas devia ter havido um pouco mais de bom senso na atuação junto dos populares”, afirmou.

Sobre esta matéria, Marcelo Rebelo de Sousa começou por dizer que o papel dos operacionais e da população foi “fundamental” para não haver vítimas mortais, sublinhando que a opinião pública está hoje “muito mais exigente em termos de segurança”.

Têm de compreender que, sem querer antecipar nenhum juízo, houve uma definição de uma prioridade, que foi, na medida do possível, proteger populações”, afirmou, sublinhando que essa definição tem consequência, levando a “certas intervenções”.

O Presidente alertou depois para o eventual cenário em que um operacional deixa de intervir atempadamente, tendo como consequência a morte de alguém: “’O senhor tinha a obrigação de intervir e evitar aquele morto ou aqueles mortos’, é o que se dirá”.

Imaginam o que é o dilema de cada pessoa que intervém ponderar o grau e a forma de intervenção. Visto depois, com frieza, as pessoas dizem, atendendo às condições e situações, ‘o tipo de intervenção foi drástico demais, incisivo demais, coercivo demais’?”, acrescentou, defendendo que estas questões sejam analisadas posteriormente.

O chefe de Estado sublinhou ainda que “o tempo disponível para tirar as lições” dos incêndios do ano passado e para “montar mecanismos preventivos” era “muito limitado”.

Um popular ligado à área da cortiça questionou Marcelo sobre se considera que a operação de combate ao incêndio tinha sido um "sucesso", mas o Presidente da República acabou por devolver a pergunta: "Como alguém que viveu por dentro, qual é a sua opinião?".

A minha opinião é que não. Isto ardeu tudo, nós perdemos o concelho. Considero que foi uma derrota de toda a gente", respondeu.

Marcelo Rebelo de Sousa terminou pouco depois os contactos com a população, agradecendo as "intervenções", que classificou como “muito importantes”, seguindo depois para uma visita às zonas atingidas.

O incêndio rural, combatido por mais de mil operacionais e considerado dominado na sexta-feira de manhã, deflagrou no dia 3 à tarde, em Monchique, distrito de Faro, e atingiu também o concelho vizinho de Silves, depois de ter afetado, com menor impacto, os municípios de Portimão (no mesmo distrito) e de Odemira (distrito de Beja).

A Proteção Civil atualizou o número de feridos para 41, um dos quais em estado grave (uma idosa que se mantém internada em Lisboa).

De acordo com o Sistema Europeu de Informação de Incêndios Florestais, as chamas consumiram cerca de 27 mil hectares. Em 2003, um grande incêndio destruiu cerca de 41 mil hectares nos concelhos de Monchique, Portimão, Aljezur e Lagos.

Na terça-feira, ao quinto dia de incêndio, as operações passaram a ter coordenação nacional, na dependência direta do comandante nacional da Proteção Civil, depois de terem estado sob a gestão do comando distrital.