Marcelo Rebelo de Sousa prometeu esta quarta-feira fazer voluntariado no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, quando terminar o mandato como Presidente da República e deixou uma crítica indireta à porta-voz do Bloco de Esquerda (BE) sobre trabalho voluntário.

"De quando em vez ouve-se uma ou outra voz na sociedade portuguesa, um pouco estranha, quase aberrante, a dizer: não é bom haver trabalho voluntário, deve haver prioridade ao trabalho pago", declarou Marcelo Rebelo de Sousa, na sessão comemorativa dos 20 anos da Associação dos Amigos do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

A 17 de abril, em Coimbra, a propósito da precariedade no mercado laboral português, porta-voz do BE, Catarina Martins, afirmou que "trabalho voluntário é uma treta" e defendeu que só deve existir "quando houver pleno emprego" em Portugal: "Até lá, só contratos de trabalho".

Nesta sessão no Hospital de Santa Maria, o chefe de Estado elogiou quem faz voluntariado, considerando que "a disponibilidade para os outros rejuvenesce" e é "a única forma de verdadeira realização pessoal".

"O trabalho voluntário, o voluntariado de que falamos vai para além da atividade profissional de muitos e, noutros casos, representa uma forma própria, autónoma, de realização pessoal que não tem a ver com atividades profissionais desenvolvidas no passado", acrescentou.

Antes de intervir, Marcelo Rebelo de Sousa foi desafiado para ser voluntário na Associação dos Amigos do Hospital de Santa Maria quando deixar a chefia do Estado.

O Presidente aceitou o desafio, sugerindo que só fará um mandato de cinco anos: "Está aceite. Cá estarei, convosco. É esperarem cinco anos, não é tanto assim".

No discurso, Marcelo Rebelo de Sousa referiu que pertence "há muito tempo aos chamados voluntários informais", no domínio dos cuidados paliativos, noutras unidades de saúde.

"Tenho a exata noção do mérito da vossa atividade, e penso que ela é exemplar na sociedade portuguesa. Esse espírito é fundamental em todos os domínios da sociedade portuguesa: a abertura aos outros, a disponibilidade para os outros, o serviço dos outros, o ser capaz de ultrapassar os egoísmos", defendeu.

Em tom de brincadeira, durante a sua intervenção, Marcelo Rebelo de Sousa disse que "o cargo de Presidente da República é às vezes uma forma de voluntariado", com "extraordinárias horas que ultrapassam aquilo que seria o estrito entendimento do exercício das funções".

"Não imaginam o que implica de compaixão, de atenção, de solidariedade, de capacidade para entender e para apoiar e para secundar, 24 horas por dia", descreveu, fazendo rir a assistência.

Está aceite o convite para depois do voluntariado político voltar a dedicar-me, e aí formalmente, ao voluntariado formal neste hospital", acrescentou.

Elogio ao ministro da Saúde e renovado apelo aos consensos

O Presidente da República elogiou esta quarta-feira o ministro da Saúde, augurando-lhe um futuro de "triunfos ao serviço do país", e renovou o apelo aos consensos, considerando incompreensível que haja divisões por questões menores.

Marcelo Rebelo de Sousa introduziu este tema durante uma conferência sobre agricultura na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, questionando: "Porquê estar a inventar questões menores que devem ser subalternizadas perante os fins maiores? Porquê? Como sabem, eu tenho-me perguntado. Ainda há dois dias me perguntei, no domínio da educação, porquê".

Depois de ter feito esta referência à educação, o chefe de Estado não quis, contudo, desenvolver o tema e voltou a remeter declarações sobre os contratos de associação com escolas do ensino particular e cooperativo para depois da reunião de quinta-feira com o primeiro-ministro, António Costa.

"Eu percebo a vossa curiosidade que é imaginativa, que é persistente, que é resiliente, mas falta só um dia para ter a audiência com o senhor primeiro-ministro. Não é muito, são 24 horas", declarou Marcelo Rebelo de Sousa, em resposta aos jornalistas.

O Presidente da República considerou que "a agricultura está a ser um bom exemplo de consenso nacional".

Mais tarde, durante a iniciativa no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, Marcelo Rebelo de Sousa elogiou o ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, apontando-o como "um realizador de consensos" no seu setor.

"Eu tenho dificuldade em discordar do senhor ministro da Saúde sempre estou com ele, e mesmo quando não estou com ele tenho dificuldade em discordar. Ele, de facto, é, naturalmente, um realizador de consensos no domínio da saúde na nossa sociedade", afirmou.

Na presença de Adalberto Campos Fernandes, o Presidente da República acrescentou que o ministro da Saúde, "com o sucesso que tem, provavelmente continuará na senda de outros triunfos ao serviço do país".

A quem o acusa de "uma preocupação excessiva com os consensos", Marcelo Rebelo de Sousa respondeu: "Não, o Presidente da República é realista. Uma economia que não é muito grande, uma sociedade que é envelhecida, uma realidade envolvente que não está favorável, tudo isso aconselha a consensos nacionais".

"Não somos suficientemente grandes e ricos e poderosos para nos podermos dar ao luxo de sobrepor coisas menores a questões maiores", defendeu.