Marcelo Rebelo de Sousa,  de Cristiano Ronaldo, pode adotar, por estes dias, o cognome de outro Ronaldo, o “fenómeno”, o jogador da seleção brasileira, reconhecido pela criatividade em campo e vencedor de vários prémios.

O novo Presidente da República portuguesa, que saiu vencedor das eleições de 24 de janeiro e tomou posse no dia 9 de março, levou seis mil pessoas ao Palácio de Belém, no último fim de semana. Populares que enfrentaram horas de filas só para ver o Chefe de Estado de perto. Beijinhos e sorrisos. Mais beijinhos. E Marcelo Rebelo de Sousa nunca se revelou cansado embora este fosse o culminar de vários dias de atos públicos.

Marcelo Rebelo de Sousa abriu as portas do palácio e os portugueses quiseram ver o Presidente, mas a ideia que passa é que são os portugueses que honram Marcelo com a sua visita. A nova estratégia de comunicação de Belém passa por “enaltecer as pessoas junto dele”, colocá-las em “evidência”, diz Francisco da Silva, que trabalha em marketing. 

Francisco da Silva compara Marcelo a “um número 10”, como “Rui Costa”, porque “distribui jogo” e “todos contribuem para a vitória”, mas quem marca é o avançado. 

Este ritmo de jogo, novo em Belém, tem sido alvo de comentários, nos órgãos de comunicação social e nas mesas de café. Ele marca, distribui jogo, quer-se um árbitro da política, mas é também o adepto que canta na bancada. Como se explica, então, este “Marcelo, o fenómeno”?

 

Marcelo Rebelo de Sousa no Palácio de Belém (Foto Lusa)

Eduardo Barroso, sobrinho de Mário Soares, destaca no amigo “uma sensibilidade especial”, apostando que Portugal vai ter “um Presidente diferente” nos próximos cinco anos, cujo pontapé de saída foi o seu “discurso de comover as pedras”. Um defensor de uma “cultura de afetos”, de que a evocação de Miguel Torga é exemplo, segundo o amigo de uma vida.

Num ambiente profissional, mesmo quem conviveu com ele do outro lado das câmaras, reconhece que Marcelo Rebelo de Sousa é extrovertido. “Conheci-o na universidade e ele sempre foi assim”, ou seja, “falava às pessoas no meio do corredor, se as pessoas esboçavam um sorriso ele correspondia”, diz o ex-diretor de Informação da TVI, João Maia Abreu, que contactou com o professor na Faculdade de Direito e, mais tarde, como repórter e como pivô no Jornal Nacional da TVI, entre 2000 e 2003.

É por isso que João Maia Abreu “acha que é genuíno aquilo que ele está a fazer”, recordando que, nos corredores da estação de televisão, o professor “falava a toda a gente”.

Do ponto de vista do marketing político, Francisco da Silva destaca a “campanha muito centralizada nele [Marcelo Rebelo de Sousa] próprio”, que é um "excelente comunicador", confirmando que, hoje em dia, um político que não saiba comunicar não tem resultados.

Da campanha para a consagração como Chefe de Estado, o marketeer frisa que “a Presidência não é mais do que um exercício de gestão de informação e influência, e Marcelo Rebelo de Sousa percebe isso”. 

9 de março foi “dia de São Marcelo”

Não tem mulher? Pode ser que se apaixone por ti."

Este foi o comentário de uma vizinha da Assembleia da República para a outra, no dia em que o “charmoso” Marcelo Rebelo de Sousa se tornou Chefe de Estado.

Historicamente, o Presidente é uma figura mais popular”, refere o politólogo Carlos Jalali.

“A popularidade é um instrumento do poder”, de um “poder informal muito relevante que é o poder de introduzir temas na agenda” e Marcelo Rebelo de Sousa percebe “claramente a necessidade desse poder”, explica o professor da Universidade de Aveiro. Por isso se distanciou do PSD e colocou-se mais ao centro.

Para Carlos Jalali, Marcelo Rebelo de Sousa assume a posição de árbitro, acima da política e acima dos partidos. “Está a construir essa imagem”, um “árbitro do sistema político e não um interveniente” vindo dos partidos.

E, a propósito dessa popularidade, o politólogo José Adelino Maltez apelida o 9 de março como “dia de São Marcelo”, numa análise feita pouco depois do discurso da tomada de posse e de Marcelo ter surpreendido todos, ao chegar a pé à Assembleia da República. Católico, à tarde, havia de marcar a diferença, participando numa cerimónia, na Mesquita de Lisboa, que juntou 18 confissões religiosas.

Como descrever a quebra de protocolo desta tomada de posse? “Uma encenação de espontaneidade”, a expressão usada por Constança Cunha e Sá e que o diretor da TSF considera excelente para descrever a vertente “cénica” de Marcelo Rebelo de Sousa. David Dinis é da opinião que este desconcerto “vai funcionar”, pelo menos nos primeiros tempos, porque “Marcelo usará como trunfo esta diferença” em relação a Cavaco Silva.

“Não acho que seja um ator tão diferente dos outros atores políticos”, entende Francisco da Silva. É uma questão de comunicação, “que todos os outros políticos também fazem”, mas que ele decidiu fazer de forma diferente. Revela “um amadurecimento” da comunicação política em Portugal. 

Marcelo, o rapper

Aos 67 anos, Marcelo Rebelo de Sousa, o homem que não dorme, também não para. E esteve sem parar nos três dias que marcaram a tomada de posse. O longo primeiro dia, por exemplo, só terminou com um concerto na Praça do Comércio. Dos portugueses mais velhos aos mais novos, todos tiveram momentos dedicados. Mas, com o primeiro dia a terminar, a procissão ainda estava no adro. 

Ainda nos faltava assistir, dois dias depois, a um mini concerto do Presidente rapper, num palco improvisado no bairro social do Cerco, no Porto. Marcelo surpreendeu até os membros do grupo de hip hop OUPA. “Já sabia que as escolhas de Marcelo eram boas", dizia um dos cantores que se mostrava "feliz” pelo novo Presidente da República ter escolhido o Cerco para "se iniciar no rap". 

O marketeer Francisco da Silva destaca este como um "bom" exemplo da estratégia de comunicação de Marcelo Rebelo de Sousa, "adaptando-se às audiências", ao "juntar as culturas" quando tentou declamar versos em modo rap. Uma boa estratégia em que "o sucesso vem da capacidade dele se adaptar" às situações. 

Antes, nesse dia, o Presidente entrou em direto na emissão da Rádio Comercial. Outro bom exemplo de comunicação política, segundo o especialista em marketing. Marcelo Rebelo de Sousa "não entrou na esquizofrenia das redes sociais", mas sabe usar as redes sociais. Neste caso, para além de ter entrado em antena na rádio mais ouvida do país, o Facebook da Rádio Comercial, onde foi publicado o telefonema, é seguido por mais de um milhão e meio de pessoas.  

Obrigado Sr. Presidente :D Uma manhã que vai ficar para a história da Rádio Comercial. Depois do telefonema, o encontro...

Publicado por Rádio Comercial em Sexta-feira, 11 de Março de 2016

 

Já esta segunda-feira, Marcelo foi ver uma exposição na Cordoaria Nacional, que não estava na agenda presidencial. Com comitiva e sem aparato da comunicação social, quem visitava a exposição naquela altura, viu algo mais do que estava à espera.  

O nosso Presidente, e vizinho, Prof. Marcelo Rebelo de Sousa visitou a exposição. Obrigado Sr. Presidente! Foi uma honra recebê-lo!

Publicado por Exposição do Corpo Humano - Real Bodies em  Segunda-feira, 14 de Março de 2016

O "irmão mais velho"

“Quando ele aparecia em público [em comícios, por exemplo] era como se fosse uma superstar, porque as pessoas gostavam de o ver, de lhe falar, e ele correspondia sempre muito naturalmente”, recorda João Maia Abreu dos tempos em que fazia reportagem.

Mas, será este show de Marcelo para continuar? “Acho que Marcelo Rebelo de Sousa vai ter um estilo e uma substância diferente. Em toda a campanha e até nesta tomada de posse, isto é uma forma de mostrar que é um anti-Cavaco. Tivemos um presidente economista, frio, distante. Agora temos um presidente que quer ser afetivo, que quer estar próximo, que quer ser mais interveniente, que não quer tomar partido”, argumenta Constança Cunha e Sá.

O antigo bastonário da Ordem dos Advogados, José Miguel Júdice, descreve Marcelo como um familiar preocupado, mas menos austero do que um pai.

Não sei se é bem uma figura paterna. Não sei se Marcelo não é o irmão mais velho de todos nós, isto é, alguém que se preocupa connosco, que protege um bocadinho, mas solidariza-se connosco, briga connosco. Figura paterna é manifestamente Cavaco".

 

Marcelo Rebelo de Sousa entre os visitantes de Belém (Foto Lusa)

Francisco da Silva pega numa expressão de Adelino Maltez para explicar estes episódios. “Temos o presidente da Junta de Freguesia de Portugal”, numa alusão à relação de proximidade destes autarcas à população. O presidente que é um “conhecido” e que conhece toda a gente, “que sabe o nome”, que “pergunta pelo filho”. O presidente “terra a terra”. 

Em lágrimas e com a voz embargada, uma popular que, na sexta-feira, no Porto, aguardava pela chegada de Marcelo, concluía:

Acho que ele, em dois dias, já fez mais do que os outros todos. Tudo o que ele fez, todas as atitudes que tomou (…) tem sido um exemplo ímpar.”

“Estes primeiros momentos têm uma estratégia de aproximação aos cidadãos” e Carlos Jalali não se admirará se “as primeiras sondagens [que forem realizadas depois da tomada de posse] se mostrem superiores àquilo que foram os resultados eleitorais”.

Marcelo Nuno, assim batizado como homenagem ao Presidente de Conselho do antigo regime, Marcello Caetano, e filho de um antigo Governador de Moçambique, surge como um homem do povo.

Filhos de Marcelo Rebelo de Sousa durante cortejo em Belém após tomada de posse (Foto Lusa)

No meio do povo colocaram-se também os filhos, que acenaram ao pai de uma paragem de autocarro na chegada a Belém, no dia da tomada de posse. Também o irmão Pedro e a cunhada foram espreitar o novo Presidente de longe, na rua frente ao Mosteiro dos Jerónimos.

"Os outros [políticos] também levam os filhos". Revela, no entanto, uma "evolução" da comunicação. "Não é inovadora no conteúdo, mas sim na forma", entende Francisco da Silva. 

Não há jogos ganhos à partida

Desde quando não se sabe, mas Marcelo Rebelo de Sousa “estava em jogo” para ter uma outra intervenção na vida política portuguesa. Em campo, Marcelo pode ser médio. “Talvez esteja a distribuir jogo no meio campo, são posições chave, talvez possa ser um bom trinco, porque não é atacante por natureza, não está só à defesa. Acho que é uma pessoa que vai querer estabelecer pontes, um entendimento entre as várias partes que estão à frente do poder legislativo, ser um bocadinho a ponte entre todas as forças políticas", conclui João Maia Abreu.  

Para David Dinis, está tudo em aberto, a avaliar pelo discurso da tomada de posse:

Foi um discurso ‘Ivone Silva’, com um simples vestido preto não me comprometo.” 

Qual será o balanço de Marcelo Rebelo de Sousa como Chefe de Estado, ainda é cedo para vaticinar, até porque essa “avaliação não depende só de Marcelo Rebelo de Sousa” e tem a ver com “outros atores políticos”, a eventualidade de uma “crise governamental”, a hipótese de uma “rutura parlamentar” e “eleições antecipadas” ou de “como evolui a situação económica” e as “pressões europeias”, analisa Carlos Jalali.

Hipóteses que um professor de Direito como Marcelo Rebelo de Sousa pode ter colocado ao longo da vida aos alunos, mas é ele que agora vai a exame. É “um jogo em que não é o único nem o principal decisor e tem de ser muito inteligente para encontrar solução para os desafios” e manter a “popularidade”, acrescenta, recordando o “impacto que a crise económica teve no mandato de Cavaco Silva e que não era evidente no início. Também Jorge Sampaio teve como um dos grandes desafios do seu mandato a dissolução da Assembleia da República, no início da década de 2000. 

O amigo de infância, Eduardo Barroso, garante que Marcelo Rebelo de Sousa é mesmo assim:

Acreditem que ele é de facto diferente.”