O Presidente da República recusou, neste sábado, falar sobre a situação do BPI e eventuais repercussões em Angola, reafirmando que já disse o que tinha a dizer e fez o que tinha a fazer sobre este assunto.

Marcelo Rebelo de Sousa foi questionado sobre as notícias de renegociações entre os principais acionistas do BPI na estação ferroviária de Vila Nova da Baronia, no concelho de Alvito, antes de apanhar o comboio para Beja.

Sobre isso, o que tinha a dizer disse e o que tinha a fazer fiz. E agora não me pronuncio mais", declarou o chefe de Estado, em resposta à comunicação social. "Não me pronuncio mais", repetiu.

Perante a insistência dos jornalistas, que lhe perguntaram se teve algum contacto com Angola e se teme que as relações bilaterais sejam afetadas por este caso, aconselhou: "Não vale a pena insistir, porque eu não vou dizer nada sobre essa matéria".

Quanto à relação com Angola, o Presidente da República recordou aquilo que disse sobre "os Estados irmãos" da lusofonia quando se soube do pedido de ajuda a Angola ao Fundo Monetário Internacional.

Tudo o que corra bem para eles corre bem para Portugal. Não tenho mais nada a dizer", reiterou.

O Presidente falou sobre este assunto pela última vez na segunda-feira, após promulgar o diploma do Governo que revê as restrições dos direitos de voto nas instituições financeiras, aprovado em Conselho de Ministros quatro dias antes.

Nessa ocasião, durante uma visita a uma escola, em Lisboa, salientou que essa legislação só entra em vigor a 1 de julho e considerou que ainda há tempo para uma solução no BPI até lá.

Marcelo Rebelo de Sousa referiu que aquele diploma "foi retido" durante um mês, num "esforço da parte do Governo e do Presidente da República" para que houvesse um acordo entre acionistas do BPI.

O chefe de Estado lamentou que a tentativa de acordo entre os espanhóis do CaixaBank - que têm 44,10% do capital social do BPI - e a Santoro Finance, da empresária angolana Isabel dos Santos, que tem 18,58%, tivesse falhado.

As negociações entre a Santoro e o CaixaBank tinham como objetivo reduzir a exposição do BPI a Angola, por imposição do Banco Central Europeu, que considera que o país não tem um sistema de supervisão bancário equivalente ao europeu.

Segundo o Presidente, falhado o acordo, "restou a hipótese menos boa, mas que era a hipótese que havia, de aprovação e de promulgação da lei, para evitar consequências indesejáveis no sistema financeiro português".

Marcelo Rebelo de Sousa iniciou na quinta-feira uma visita de três dias ao interior do Alentejo que termina hoje à tarde, em Beja.

Relatórios que tiram tempo aos livros

Marcelo Rebelo de Sousa fez hoje um apelo para a leitura, no Dia Mundial do Livro, e lamentou que os relatórios e documentos que agora tem de ler lhe tirem tempo para os livros.

No terceiro e último dia da sua visita ao interior do Alentejo, o chefe de Estado doou meia dúzia de livros à Biblioteca Municipal de Alvito, no distrito de Beja, e acabou a fazer uma apresentação ao estilo das 'Escolhas de Marcelo' do seu tempo de comentador televisivo.

No final, confessou que as funções de Presidente lhe deixam "pouco tempo" para os livros que gostaria de ler: "Leio os relatórios que dispensaria, alguns deles, leio documentos que dispensaria, mas que tem de ser, e não tenho tempo."

À noite chego tão cansado, tão cansado, que começo a ler, vou lendo e tal, mas, de facto, leio menos do que devia ler", lamentou.

Marcelo Rebelo de Sousa ofereceu à biblioteca de Alvito um exemplar do livro "Afetos", que reúne fotografias de Rui Ochôa da sua campanha presidencial, três livros da coleção juvenil "Uma Aventura", um romance sobre Dom Afonso Henriques, uma biografia do ator Nicolau Breyner e uma nova edição do "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago.

Depois, embora não tivesse uma plateia, porque só estavam na biblioteca jornalistas e responsáveis do município, o Presidente fez um discurso de incentivo à leitura.

"Pode ler-se um livro na internet, na cama, sentado, na sala de aula, na biblioteca, onde se quiser. Agora, é fundamental que se leia, por pouco que se leia", disse.

O chefe de Estado considerou que "quem não lê acaba por não aprender acerca do mundo e acerca dos outros e, além do mais, acaba por ser pobre na maneira como comunica com os outros".

Marcelo Rebelo de Sousa retomou o tom de comentador que recomendava livros e falou também como professor universitário de Direito, que deixou de ser há mês e meio: "Um dos problemas que eu encontro nos meus alunos, naqueles que leem pouco, é que conhecem menos palavras do que deviam conhecer, usam sempre as mesmas palavras."

"Há livros para todos os gostos. Deve-se ler livros", insistiu.