Calhar chuva na rifa não era o desejável, mas Marcelo Rebelo de Sousa cumpriu a agenda do segundo dia de campanha entre Vila Real, Boticas e Mirandela. Ora, “uma rifa que nunca se sabe o que vai dar” foi precisamente como o adversário Sampaio da Nóvoa o classificou hoje, no primeiro dia oficial da campanha eleitoral.

A Casa do Vinho de Valpaços não estava na agenda oficial, mas não teve cara de visita surpresa, já que a sala está cheia à espera do professor. O palanque pronto. Discursou e não bebeu nada. Não bebeu, mas também não esqueceu de ter resposta pronta para o adversário, quando os jornalistas o confrontaram:

“A minha história política fala por mim. Quando foi preciso consensos de regime e estabilidade… Eu já tenho provas dadas”


O candidato presidencial condenou a “agressão pessoal” de que entende estar a ser alvo até porque, justificou, depois das eleições, quem ganha e quem perde, todos “têm de estar juntos a colaborar no interesse nacional”.

“Por muito importante que seja a conquista do voto, vale a pena fazer campanhas que dividem em vez de fazer convergir? Não é o problema de haver diversidade de pensamento…. Mas sentido isso [ataques pessoais] quando o que nos une é mais importante do que aquilo que nos separa?”, questionou.


“Dispensam-se vaidades e aquelas alegrias momentâneas na disputa pela disputa”


Marcelo dispensa-as, mas na última paragem do dia, em Mirandela, voltou a invocar o seu currículo, a “experiência política”, e disso quis fazer uma vantagem.

Recordou que foi autarca de Celorico de Basto, nesta região, e que naquela altura era “o município mais pobre de Portugal”. A biblioteca do município tem o seu cunho: “Tem de se começar por algum lado, aquilo que lentamente aos poucos vai começando a mudar a vida de uma comunidade".

Associações de pais, escolas, instituições políticas também entraram no histórico que verbalizou, para enfatizar as “pontes” que diz ter construído, “na liderança com a oposição em Lisboa, na maioria liderada por Jorge Sampaio”.

Mais ainda, a presença semanal na TVI durante anos, até ao momento em que anunciou a sua candidatura. Ontem já tinha falado no assunto, hoje voltou a querer rebater as críticas que os adversários nesta corrida a Belém lhe têm imputado.

“Depois o que eu fiz naquilo que pasmo por se considerar um pecado, que foi semanalmente conviver com portugueses, criando pistas de reflexão e cumplicidade cívica, cada qual a pensar, mas com disponibilidade para discutir problemas e encontrar soluções”.
 

Vitória no papo? No futebol, não há prognósticos antes

É Nóvoa o seu grande adversário? Marcelo diz que tem outros: "os problemas dos portugueses”. A austeridade dos últimos quatro anos, quando o seu partido esteve no Governo, com o CDS-PP não o faz ficar “nada incomodado” com o legado. Está sim, afirmou, “preocupado com o futuro”.

Há ainda praticamente duas semanas de campanha eleitoral pela frente e para Marcelo “é importante uma clarificação rápida e definitiva”, à primeira volta, depois da turbulência política de 2015. Sem divisões. Daí o argumento de um Presidente "que represente mesmo todos os portugueses". Mais uma crítica implícita ao slogan de Sampaio da Nóvoa:

“Um Presidente não de um partido, de um grupo, de uma fação. Não é que não tenha uma história, uma origem, (mas) não há um tempo novo e um tempo velho, só há um tempo: o tempo de Portugal".


Marcelo Rebelo de Sousa está muito à frente nas últimas sondagens conhecidas e continua a acreditar que está "a um passo" de ser chefe de Estado. Ainda assim, fez um apelo ao voto num tom mais cauteloso quanto à vitória do que até aqui: "As eleições legislativas já estão despachadas, estas não".

O seu Braga estava hoje a ganhar 2-0, mas não conseguiu despachar o Sporting, que deu a volta ao jogo. A campanha não é futebol, mas tem muita estrada para correr.