O Presidente da República escusou-se a comentar afirmações do seu antecessor, Cavaco Silva, sobre a atuação dos chefes do Estado, alegando "respeito pela função presidencial" e a necessidade de se fazer "respeitar pelo povo". No entanto, deixou um recado ao ex-Presidente da República: é preciso "cuidado naquilo que se diz".

Por uma questão de cortesia, bom senso, obviamente de educação, mas sobretudo por uma questão de respeito pela função presidencial, pelo prestígio da democracia [não comento as declarações de Cavaco Silva]. Porque se os sucessivos Presidentes da República não têm um respeito naquilo que dizem uns dos outros, em termos de forma e de conteúdo, acabam por não se fazer respeitar pelo povo", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, na Póvoa de Lanhoso, quando confrontado com as declarações do seu antecessor no Palácio de Belém.

Na quarta-feira, na Universidade de Verão do PSD, Cavaco Silva criticou a "verborreia frenética" da maioria dos políticos europeus, elogiando a exceção do Presidente francês, Emmanuel Macron, a quem dedicou uma parte da sua intervenção de 50 minutos a elogiar a estratégia comunicacional, dizendo ver semelhanças com a que adotou quando exerceu cargos de poder e que passa por recusar qualquer "promiscuidade com jornalistas".

Eu não comento nem declarações nem decisões de antigos ou futuros presidentes. Isso aplica-se ao presente, aplica-se ao futuro. Tenho dito isso desde o início do mandato. Quem é eleito Presidente da República assume um certo dever de reserva e de contenção, em particular nas relações com os seus antecessores, os que já foram Presidentes e com os seus sucessores", acentuou.

No entanto, explicou o chefe de Estado, essa contenção "não significa não falar da vida política portuguesa" mas "ter muito cuidado no relacionamento com quem foi Presidente da República ou está a ser Presidente da República".

É uma questão de equilíbrio e de consideração pela função presidencial, e pelo prestígio das instituições democráticas haver todo o cuidado naquilo que se diz", concluiu.

Também o primeiro-ministro comentou as declarações do antigo presidente. António Costa considerou ser “natural” que o ex-Presidente da República, Cavaco Silva, “tenha agora saudades do palco” depois de ter estado tanto tempo politicamente ativo.

É natural que alguém que durante tantos anos foi politico profissional tenha agora algumas saudades do palco, e é também natural que haja pessoas que tenham saudades do estilo presidencial que o professor Cavaco representou”, acrescentou.

Cavaco Silva, quarta-feira, na Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide, defendeu que, na zona euro, "a realidade acaba sempre por derrotar a ideologia" e os que, nos governos, querem realizar a revolução socialista "acabam por perder o pio ou fingem que piam".

Em comentário, Costa apenas disse que faz parte há muitos anos de um partido “que sempre foi reformista e não iniciou nenhuma revolução”.