"De acordo" foi uma expressão ouvida mais do que uma vez da boca de Marcelo Rebelo de Sousa no debate presidencial com Paulo Morais, na TVI24. Mas o Orçamento do Estado para 2016 não foi um desses pontos de entendimento. Enquanto o antigo vice-presidente da câmara do Porto entende que o documento é - ou pelo menos devia ser - simples de fazer, Marcelo defendeu o primeiro-ministro socialista, António Costa, na demora.

"O Orçamento do Estado é um documento sobre o qual o governo tem de equacionar, e este Governo tem políticas diferentes do Governo anterior. Não é pegar no que já está... Mês e meio [de demora] não é escandaloso"


O candidato a Belém entende que, olhando para a prática nacional, "e para uma rutura significativa" que a sociedade conheceu com a mudança de Executivo e de direção política, "não é excessivo". Recorde-se que o Governo tomou posse a 26 de novembro último . Pelas regras europeias, o OE2016 deveria ter sido entregue a 15 de outubro só que, com a queda do Governo PSD/CDS-PP, isso não aconteceu. 

Paulo Morais, mais acutilante na contra-argumentação, quando tomou a palavra atirou: "Depois deste momento de desdramatização, vou dramatizar um pouco". E continuou:

"Quando fazem o Orçamento do Estado, [os Governos] decidem onde vão gastar dinheiro e, depois, toca a sacar dinheiro ao povo e às empresas. O OE não deve ser documento complexo, mas simples: face à receita, decidir em que é que o Estado vai gastar a receita a que vai ter acesso, em educação, juros, dívida pública. Penso que este OE está a demorar por causa das PPP", insinuou, desconfiando se António Costa vai acabar com as parcerias-público privadas.

Um Presidente estável ou instável?

Para Paulo Morais, a equação é simples:

"Marcelo é um candidato da estabilidade que gosta de desdramatizar, como ele próprio diz. Quem achar que as coisas estão bem deve votar na estabilidade, quem achar que estão mal deve votar em mim"


O professor viu "com alegria" que o seu adversário reconheça que tem "trabalhado para a estabilidade". "Criação de consensos é criação de estabilidade. Também concordo consigo que as sociedades mudam em função da utopia, da rutura, da diferença", e deu exemplos dele próprio, enquanto político, como criador de uma instabilidade profícua, como foi o caso da comissão de inquérito sobre a promiscuidade entre poder económico e político ou o a sua posição sobre o financiamento dos partidos. 

"Registo que as nossas campanhas sejam das mais baratas, das mais baixas de custos, nesta viragem de campanhas, de descer dos milhões para escassas centenas de milhares de euros", disse ainda Marcelo Rebelo de Sousa a Paulo Morais, para depois retomar o tema da (ins)estabilidade

"Sendo preocupado com a desdramatização e consenso, há momentos que obrigam à instabilidade", considerou, prometendo, se for eleito, um magistério de equilibrio: "de fazer pontes, cicatrizar feridas, país dividido em dois, neste momento antagónicos. Uma coisa é tentar reatar o que se quebrou. Acho que é preciso ser dedramatizador, falar com todos".

"Estabilizar não é pactuar com aquilo que seja injusto. Isso tenho dito é ser politicamente imparcial e socialmente parcial"

Paulo Morais sublinhou que um Presidente "não existe para ser agradável", mas sim para "cumprir as funções constitucionais". Com isso, deu um exemplo para espelhar "o que tem faltado": os livros escolares. "A Constituição diz que o ensino deve ser universal, obrigatório e gratuito. Nós sabemos que se gasta 400 ou 500 euros em livros anuais. Tem de se acabar com isso. O PR tem de chamar poder executivo e dizer 'meus amigos, os livros escolares têm de ser gratuitos".

"Sabemos perfeitamente que isto não acontece porque há três editoras  - Porto Editora, Leya e Santillana, - que dominam o mercado e influenciam parlamento. É evidente que com as editoras não farei  pontes, com as famílias farei pontes", atirou.

Marcelo Rebelo de Sousa corroborou: "Concordo, já aqui fiz uma intervenção defendendo uma política de troca e até recebi um telefonema de um editor amigo dizendo que era uma ideia soturna, um disparate porque há o investimento dos autores e os autores têm de investigar e assim não há atualização... Pois é, mas noutros países há um período mais longo de duração dos livros escolares que passam de irmão mais velho para irmão mais novo".

"Só olhei para as sondagens"


Questionado sobre o jornalista Paulo Magalhães sobre se tem passado uma imagem de arrogância ao considerar que vai ganhar à primeira volta as eleições do próximo dia 24 de janeiro, o professor respondeu:  "O que eu disse e diria hoje outra vez foi apenas isso, olhando para as sondagens, ponto final parágrafo. Neste momento, apontam todas para esse sentido".

Ainda assim, ressalvou que "quem mais ordena é o povo, até ao momento da votação tem exatamente a mesma hipótese de ser eleito Paulo Morais e eu".

Este, se não passar à segunda volta, já decidiu que em Marcelo não votará, como em nenhum dos outros candidatos: "Não, com toda a simpatia, não me leve a mal, a minha candidatura é tão diferente. Só poderei dizer que se o povo não me der segunda volta, votarei em branco".