Lojas, livrarias, cabeleireiros, lavandarias, farmácias (claro!) e até uma funerária. “Sabe que quando menos se espera…” lá vem o professor Marcelo. Frase do próprio, em Portalegre, ao iniciar de boina portuguesa na cabeça o quarto dia de campanha com um passeio pela cidade, irrompendo por uma loja de roupa adentro para ver “as cores da moda”. O seu estilo é, já se percebeu, de uma campanha eleitoral sui generis.

Nem um cartaz, nem uma bandeira, nem um bombo, às vezes quase tantos jornalistas como apoiantes. Mas desengane-se quem pensa que o professor por onde passa marca simplesmente o ponto. Apesar de até ser o candidato que todos conhecem, demora-se em conversas, sem dispensar beijinhos. Pede no primeiro cumprimento. Repete-os na despedida: “Ora dê cá mais uma beijoca”.

Sem pressas nesta corrida a Belém, em quatro dias de campanha - a oficial só arrancou no domingo, mas o professor deu o pontapé de saída no sábado - não bateu nem uma vez com o nariz na porta que todos lhe abrem. Ele, que não sai da janela da televisão. Até tira proveito disso: "Sou mais magro ou mais gordo ao vivo?". O comentador a querer comentários. 

 

Política nas (entre)linhas


A confraternização vem sempre acompanhada das suas perguntas atrás de perguntas. E também de mensagem política. Até quando questiona os comerciantes sobre como conseguem “aguentar” numa terra desertificada um estabelecimento de roupa para crianças. Ou quando quer saber em detalhe preços e descontos. “25 euros? É uma camisola cara para um miúdo de 12 anos”. É o neto, a quem acabou por comprar um livro. “Estou mais contido, de facto. Mais forreta”, disse aos jornalistas.  

A crise, portanto, en passant pelo discurso. O candidato é, ainda assim, “otimista por natureza”, como se tem autoclassificado. Coloca a tónica nas soluções.

Foi assim no Hospital Distrital de Portalegre. Quis saber se as urgências estavam a funcionar bem e recebeu resposta positiva. Ouviu as queixas sobre a falta de médicos de especialidade. E em vez de lamentar ou condenar, uma pergunta: “E como resolveram?”.

Resolveram. Registou também a “boa ideia” dos concursos médicos mais espaçados no tempo, para evitar que quem é colocado no interior não vá para o litoral à primeira oportunidade.

Pelos corredores de duas enfermarias, espreitava porta a porta, metia-se com as jovens funcionárias de sorriso aberto, beijinho aqui e acolá. No Lar da Santa Casa da Misericórdia esteve hora e meia na conversa com os idosos, certificando-se que o ouviam.
 



Marcelo sente mais “esperança” e “desanuviamento ligeiro” nas pessoas com quem se tem cruzado. O povo, sublinha, está no entando "ainda a ver onde param as modas”, depois do peso da austeridade e da crise política do final do ano passado.

A função pública, por exemplo, está à espera que António Costa cumpra a promessa de voltar às 35 horas de trabalho semanal e já emitiu um pré-aviso de greve para pressionar. Marcelo foge a uma tomada de posição e devolve o tema para o Governo, que “assumiu o compromisso” e deve estar a “fazer contas à vida” com o Orçamento. “É a utopia moderada pela realidade”, deixa largar.

Como quem não quer a coisa, lá vão umas indiretas. Mas também se coloca ao lado de Costa, e aí de forma explícita: faria o “possível e o impossível” para aprovar o Orçamento do Estado para 2016.

Uma no cravo, outra na ferradura: a Passos, o atual líder do seu partido, dá o conselho de “refazer-se” na oposição. Isso foi em Castelo Branco, no politécnico, onde assumiu que tem amigos de "sobrolho franzido" ao escutá-lo. 
 

Marcelo tem uma teoria


Ora, professor que é candidato joga em casa por onde vai passando: esteve na Universidade da Beira Interior e educação é, sem surpresa, tema na sua agenda de campanha.

A estratégia é marcadamente social, com visitas a lares de idosos, casas de acolhimento de crianças e jovens, um hospital. E passear na rua, quando a chuva finalmente começou a dar tréguas. A mensagem tem passado pelos “afetos”. Uma campanha de “coração”, como diz.  

“Eu tenho a seguinte teoria: é muito importante esta proximidade, mas que em rigor não caça votos nenhuns. As pessoas têm na cabeça já o voto, o voto ou não voto, mas espero que o voto. À distância de 9 ou 10 dias, já ninguém muda de voto”



Será mesmo assim? Marcelo Rebelo de Sousa quer ganhar à primeira volta. Tem dito, repetido e hoje insistiu. Encontrou um “perfume da felicidade” numa loja isotérica, elevou o tom para contar a descoberta aos jornalistas que logo aproveitaram a deixa para associar ao cheiro de Belém. Ele, prontamente.“Vai tudo bem encaminhado".  

Pelas pouco concorridas ruas de Portalegre, a TVI24 encontrou indecisos. Manuel Candeias e a mulher ainda não sabem em quem vão votar e acreditam no que ouvem dizer: que haverá segunda volta.
 


Nesta terra de esquerda (a sede de campanha de Nóvoa era mesmo ali e via-se propaganda de Edgar Silva em pleno Rossio), que à partida pode ser desfavorável para um candidato que foi líder do PSD, este “é capaz de ter hipóteses”, assume aquele reformado.
 

Baralhar para sair trunfo 

Marcelo tem, de resto, estendido o discurso para abranger o eleitorado cortado às fatias. Foi numa pastelaria na Guarda, atrás do balcão enquanto comia um bolo, que baralhou as cartas ideológicas e se autoproclamou “da esquerda da direita”, esforçando-se até por separar as águas em relação ao PSD e dispensando Passos nesta campanha de um ou outro (im)previsto partidário

O atual chefe de Estado é social-democrata e Dona Lurdes, 73 anos, ex-auxiliar de ação educativa, quer que o próximo seja diferente como pessoa. A política é outra história. 

 


Há tenha sido assumidamente laranja e agora desconfie do PSD, mas não tem dúvidas quanto à figura presidencial. Marcelo agradece e... elogia a cor do cabelo que até é mais socialista.

 
Num cabeleireiro, gracejos com outras cores: “A partir de uma certa idade são todas loiras e ruivas”.
 


Uma questão de "estômago"

 

Depois de ter lamentado três dias de campanha sem ir a uma farmácia, foi em terreno alentejano que o candidato hipocondríaco (adjetivo que ouvimos no lar que ia visitar a seguir), tratou das suas “comezainas”. “Tem toalhetes de álcool? E que novidades de omeoprazol?”.

 


Tudo pago, fatura com número de contribuinte confirmado. Marcelo a ditá-lo mais baixo, lembrando em tom de brincadeira a “zanga” dos portugueses com Passos Coelho, quando passaram a dar o NIF do ex-primeiro-ministro em tom de protesto.

Depois das despedidas a rigor na farmácia centenária, beijinho aqui, desejos de boa sorte ali, saiu “devidamente aviado”.


Rumo a Belém?


É o que o candidato quer, mas há ainda agenda de campanha para cumprir e aviões para apanhar, por mais que diga que não é assim que conquista votos.

Nas ruas, o professor já mostrou que precisa só de si mesmo. E é sozinho que vai até ao Funchal, onde passará esta quarta-feira, quinto dia de campanha.

Nem todos os jornalistas o acompanham e deles se quis despedir: “Pensei que houvesse turnos entre vocês e viessem outros para a semana”.
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Não, na quinta-feira lá estaremos. Não há ainda programa detalhado. O candidato tem compromissos de doutoramento pelo meio e também ainda não decidiu onde vai encerrar a campanha. Promete, apenas, “algumas novidades para não estarem com a perceção que há muita repetição”. Vindo dele, sabemos que, quando menos se espera, alguma coisa acontece.