O Presidente da República prometeu este sábado manter uma "exigência constante" para que não se repitam tragédias, mas frisou que não é uma questão pessoal, nem dirigida exclusivamente a este Governo, abrange todos, a começar por si.

No final da sua visita ao grupo oriental dos Açores, questionado pelos jornalistas sobre até quando manterá pressão sobre o Governo na sequência dos incêndios, Marcelo Rebelo de Sousa considerou que "o país ficou chocado consigo mesmo" e que "essas tragédias impõem deveres, deveres instantes", mas "para todos" - "não é para é para o órgão A, B, C, D".

O chefe de Estado, que falava numa escola básica no concelho de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, afirmou que vai "assumir até ao fim do seu mandato - com este Governo, tal como com o futuro Governo, qualquer que ele seja -, porque assume em relação a si próprio, um dever de exigência constante, para que não ocorra novamente uma tragédia como esta".

Admitindo que talvez não tenha sido compreendido, acrescentou: "Não é uma teimosia, não é questão pessoal, não é uma questão conjuntural. É uma exigência nacional. Eu tenho tentado explicar isto, se eu não consigo explicar isto, considerando-me um razoável pedagogo, e um professor, é porque há algum problema na minha comunicação, ou é porque quem ouve ou não quer ouvir ou não entende o que eu estou a dizer".

Marcelo Rebelo de Sousa respondeu longamente a esta questão, durante sete minutos, lamentando que as suas palavras na sequência dos incêndios sejam lidas como "uma exigência a A, a C, a D, por razões conjunturais, furtuitas, circunstanciais".

Não é nada disso, é uma exigência nacional. Ou somos exigentes para resolver o problema, ou não somos e não resolvemos. Se não resolvermos, falhamos todos. Considero uma perda de tempo, em vez de discutirmos o que é preciso fazer para que se não repita mais o que ocorreu, estarmos a discutir realidades, independentemente do seu caráter ficcional ou não ficcional, que são totalmente irrelevantes", disse.

"Não é para o órgão A, B, C, D, não é para a população A, B, C, D. Não, é para todos", reforçou, defendendo: "Não há como nós todos não nos sentirmos pressionados a olhar para o que é preciso fazer num espaço de tempo muito curto, porque é menos de dois anos".

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, na sequência os incêndios, o país "ficou chocado consigo mesmo" e "o Presidente da República, ele próprio, disse ao país que sentia esse choque nele próprio - não começava pelos outros, começava por ele próprio, como responsável supremo no quadro do poder político do Estado português".

O chefe de Estado reafirmou que mantém as prioridades que estabeleceu quando tomou posse: a procura de consensos, a existência de um "Governo forte, durando uma legislatura", de uma "oposição forte, para constituir a alternativa do Governo, sendo essa a vontade dos portugueses", e o reforço da concertação social.

"Esse é um ponto. Outro ponto específico é este: O país viveu duas tragédias quase consecutivas, e com alguns aspetos semelhantes, e ficou chocado, por razões que se prendem com o que ocorreu nesse tempo, e por descobrir que havia aspetos estruturais que vinham de longe e para as quais não tinha olhado como deveria ter olhado", prosseguiu, explicando que face a isso sente "um dever de exigência constante".

No seu entender, às vezes os portugueses ficam "a discutir o pormenor do pormenor do pormenor", e perdem "a visão do que é importante", que é "recuperar décadas de distração, ou de atraso, ou de não compreensão plena, mais o que se somou nos factos ocorridos".

"Se continuamos a discutir os pormenores, não chegamos lá. E eu como Presidente da República não posso admitir que não cheguemos lá", advertiu.

 

"Governo tem menos de dois anos para resolver problema" dos fogos

Antes, Marcelo Rebelo de Sousa já tinha prometido, em conversa com um açoriano num mercado, que não largará as regiões afetadas pelos incêndios. O Presidente referiu já ter avisado que "o Governo tem menos de dois anos para resolver o problema".

Eu agora vou lá daqui a uns dias outra vez, e depois volto lá no final de novembro. Depois vou passar o Natal, quer em Pedrógão, quer na zona agora ardida - aí provavelmente o fim do ano. Portanto, eu não largo. Eu já disse o seguinte: o Governo tem menos de dois anos para resolver o problema", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.

O chefe de Estado teve esta conversa no mercado da Graça, em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, onde andou quase uma hora, sempre rodeado de gente, a quem distribuiu beijos, abraços, apertos de mão e fotografias, numa visita acompanhada pelo presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro.

No final do percurso pelo mercado, Marcelo Rebelo de Sousa foi abordado por um homem que lhe fez um pedido: "O senhor não se canse de ir lá ter com aquela gente, os nossos amigos que têm sofrido com os fogos".

Não, estou lá sempre, sempre", respondeu-lhe o Presidente. "Eu nem imagino. Deus o abençoe", declarou o açoriano.

Depois, o Presidente da República referiu que já avisou que só há "dois anos para resolver o problema", e acentuou que o tempo é pouco: "O Governo e este parlamento só duram agora mais um ano e dez meses, têm de resolver o problema".

"Deus lhe dê saúde", retorquiu o homem.

À chegada ao mercado da Graça, o chefe de Estado foi recebido com palmas e, durante a visita, foi saudado com palavras de apoio como "continue assim", "mantenha-se em forma" ou "Deus o ajude sempre a levar a gente para a frente".

Marcelo Rebelo de Sousa congratulou-se em especial com as palavras de uma mulher que lhe disse que "é muito paciente".

"Aí é que acertou: muito paciente. Olha que é bem visto: muito, muito paciente", concordou o Presidente, ouvindo em resposta: "É preciso paciência com ele, paciência, e muito boa vontade. Tenho muito carinho por si".

"E boa vontade. Ora, até que enfim que alguém me compreende. Exatamente: muito paciente", comentou o chefe de Estado.

Houve também quem só quisesse beijar o Presidente ou tirar uma foto: "Eu só quero um beijinho", disse-lhe uma mulher. "Já agora, a gente quer um beijo", afirmou outra, mais à frente.

O Presidente da República ouviu também uma queixa de um homem em cadeira de rodas, Gilberto Sousa, de 70 anos, deficiente das Forças Armadas, que lhe contou que tem a mulher doente e nenhum apoio do Estado: "A minha esposa está doente e não tem apoios de ninguém".

"Mas não tem apoios da Segurança Social?", perguntou Marcelo. "Não, porque ela nunca trabalhou para tomar conta de mim", explicou o homem, a quem o Presidente então pediu que deixasse o seu nome e contacto, para se inteirar da situação.