O Presidente da República advertiu esta terça-feira que usará todos os seus poderes contra a fragilidade do Estado que considerou existir face aos incêndios que mataram mais de 100 pessoas, e defendeu que se justifica um pedido de desculpa.

Marcelo Rebelo de Sousa falou ao país, numa declaração feita a partir da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital, concelho do distrito de Coimbra, que foi um dos mais afetados pelos incêndios que deflagraram no domingo.garantindo que as vítimas "não mais sairão" do seu pensamento.

Mais de 100 mortos em menos de quatro meses não mais sairão do meu pensamento, como um peso enorme na minha consciência e no meu mandato presidencial. (...) Estas mortes representam a fragilização dos portugueses. A fragilidade existe e exige uma resposta rápida e convincente", afirmou Presidente da República que "é, antes de mais, uma pessoa".

O presidente da República afirmou ainda que "fragilidade existe e atinge os poderes públicos", considerou que o "Governo deve garantir que a fragilidade terá que deixar de existir" e exigiu uma "rutura" com o passado, aconselhando "humildade cívica".

Quem não entenda isto, humildade cívica e rutura com o que não provou ou não convenceu, não entende nada do essencial que se passou no nosso país. Para mim, como Presidente da República, o mudar de vida neste domínio é um dos testes decisivos ao cumprimento do mandato que assumi, e nele me empenharei totalmente até ao fim desse mandato", assegurou.

 

É a melhor, se não a única forma de verdadeiramente pedir desculpa às vítimas de junho e de outubro - e de facto é justificável que se peça desculpa. Esta é a última oportunidade para levarmos a sério a floresta. Tem de ser uma prioridade nacional", acrescentou.

 

Marcelo reiterou que espera do Governo "que retire todas, mas todas as consequências da tragédia de Pedrógão, à luz das conclusões dos relatórios", conforme "se comprometeu" a fazer.

No seu entender, "impõem-no milhões de portugueses, mas impõem-no sobretudo os mais de cem portugueses que tanto esperavam da vida no início do verão de 2017 e não chegaram ao dia de hoje".

Marcelo, que "espera que o Governo retire todas as consequências do que aconteceu", foi ainda mais longe e prometeu que "estará atento e exercerá todos os seus poderes para garantir que onde existiu ou existe fragilidade, ela terá de deixar de existir".

Se na Assembleia da República há quem questione a capacidade do atual Governo para realizar estas mudanças que são indispensáveis e inadiáveis, então, nos termos da Constituição, esperemos que a mesma Assembleia soberanamente clarifique se quer ou não manter em funções o Governo".

De acordo com o chefe de Estado, é inegável que muitos "ficaram fragilizados" perante "o que lhes pareceu a insuficiência de estruturas ou pessoas" no combate aos incêndios deste ano.

Ficaram, sobretudo, fragilizados perante a ideia da impotência, da impotência da sociedade e dos poderes públicos em face de tamanha confluência de catástrofes no tempo e no espaço", reforçou.

Admitindo que possa ser "em muitos casos excessiva ou injusta", o chefe de Estado insistiu: "O certo é que a fragilidade existiu e existe, e atinge os poderes públicos. E exige-se uma resposta rápida".

O Presidente da República rejeitou a possibilidade de se conviver "novas tragédias" e prometeu fazer tudo para salvaguardar os princípios constitucionais da segurança e da confiança no Estado.

É tempo de reconstruir, de iniciar um novo caminho, de acreditar no futuro, na base da mudança em relação ao passado", afirmou.

As centenas de incêndios que deflagraram no domingo, o pior dia de fogos do ano segundo as autoridades, provocaram pelo menos 41 mortos e cerca de 70 feridos além de terem obrigado a evacuar localidades, a realojar as populações e a cortar o trânsito em dezenas de estradas.

O Governo decretou três dias de luto nacional, entre hoje e quinta-feira.

Esta é a segunda situação mais grave de incêndios com mortos este ano, depois de Pedrógão Grande, em junho, em que um fogo alastrou a outros municípios e provocou 64 mortos e mais de 250 feridos.