“Ora dê cá também um beijinho”. “Professor, mas eu sou jornalista”. “Ora e as jornalistas não podem receber beijinhos?”. A pergunta soa já os ditos estão nas bochechas. “Mas se quiser que lhe bata”. E lá vai a palmada simbólica na cabeça. É assim o candidato-beijocas. Até com a comunicação social, sem as câmaras estarem ligadas. A campanha eleitoral já vai a meio e Marcelo Rebelo de Sousa tem sempre na ponta da língua a resposta para as situações. Das mais caricatas e desconcertantes às mais sérias. Esta é uma campanha sui generis, já se percebeu. Sem música, ele é na mesma o DJ da festa. O lado A do disco é o mais rodado. Mas há um lado B. Que começa, precisamente, por “B”.

BES e Banif. Banca. Bancos, se quisermos. Entramos na reta final da campanha e houve pelo menos três cidadãos desesperados a pedir uma solução a Marcelo, se vier a ser eleito Presidente.

Horácio é um desses casos. Estava esteve domingo a um canto, no Fórum de Aveiro, à espera dele. Fez questão de levar no bolso do casaco o papel que atesta o que lhe tiraram – tudo; e como ficou – sem nada.

Marcelo tinha a prova em mãos e a lágrima do homem a escorrer-lhe pela cara. Não evitou um ar resignado. “Os proprietários de obrigações subordinadas, de facto, em princípio não tem direito a nada, mas se demonstrar que foi enganado…”.

Já recomposto, tentou passar a mensagem de esperança que tem apregoado. Aconselhou-o tentar recuperar o dinheiro: “Não sei, se tiver capacidade, não tem nenhuma associação... juntar-se a alguma associação dos lesados?”. Ele ouviu e desejou-lhe felicidades para Belém. “Felicidades para você, amigo, que você é que bem precisa”, devolveu o professor, durante o aperto de mão e as palmadinhas nas costas.
Horácio só pensa na filha licenciada com grandes notas, que não tem trabalho. E que ele não pode ajudar. À TVI24, explicou porque partilhou com o candidato presidencial o seu desespero. Respeita-o por ele “lembrar a lancheira com que se come” na sua campanha da marmita
 
Há quem não tenha a coragem deste homem para abrir o livro perante as câmaras. E podem contar-se pelos dedos das mãos as histórias tristes contadas de viva voz, aos candidatos, nesta corrida a Belém. Mas são histórias, pessoas, que marcam inevitavelmente a campanha. Tal como os reformados pobres nos mercados da fruta.

Marcam, por mais que a campanha de Marcelo tenha quase sempre o lado A do disco a tocar. 
   
  O álbum entrou em modo repeat nos discursos das sessões públicas a que Marcelo não quer chamar comícios. Tem começado sempre da mesma maneira, os temas quase sempre pela mesma ordem: a defesa do seu estilo de campanha, a importância da pátria, os poderes do presidente "árbitro" e, lá está, a necessidade de atirar para trás das costas o pessimismo. Uma mensagem de esperança numa campanha em que, insiste, “o afeto não é o verbo de encher”. 

Tal como votar não é um verbo para esquecer. A uma semana das urnas fecharem, Marcelo defendeu que “o voto é um dever”. Apesar de reconhecer que “os portugueses estão cansados”. Como de resto se vê, se ouve, no lado B deste disco.