Manuela Ferreira Leite voltou ao seu habitual espaço de comentário semanal, às quintas-feiras, na "21.ª Hora" da TVI com uma reflexão em relação ao ambiente de desconfiança que considera que se instalou em Portugal, concretamente, ao proliferarem os casos sobre as viagens de políticos pagas por entidades privadas.

As consequências, para a classe política, se isto assim continuar, serão absolutamente devastadoras”, diz.

A antiga ministra das Finanças assume que não vai deixar de criticar, sempre que existam dúvidas de transparência ou situações menos legítimas sem desculpas, mas, sem falar de casos em concreto, aponta o dedo às revelações mediáticas mais recentes.

“Nem tudo tem a dimensão suscetível de ser apelidado de gate. Desde logo não é um Watergate [escândalo político de corrupção, da década de 70 nos Estados Unidos, que culminou com a renúncia do presidente Richard Nixon] e nem todas as coisas são certezas. São denúncia, desconfianças, sugestões”, critica.

Acrescentando que “quando se fala de presidentes de uma junta de freguesia, que sabemos a que níveis de natureza económica funcionam (…), penso que está tudo por demonstrar e pode não haver aqui nada de anormal.”

“Está tudo muito na base da insinuação e isso é muito perverso. Porque a pessoa fica marcada para o resto da vida”, acrescenta a comentadora da TVI.

Ferreira Leite diz que o caso se torna mais grave quando essas insinuações “estão muito na boca de políticos jovens (…). Se pensassem ter futuro profissional, provavelmente, não falariam assim de outros políticos – se não defenderiam o que pensam ser esse futuro. Esta é uma contribuição muito boa para não pôr em discussão os verdadeiros corruptos (…) porque andamos ocupados com casos menores.”

Um comentário no qual o Ministério Público também não foi poupado, pelo fato de anunciar que anda a investigar as viagens que têm vindo a público e que incluem eventuais ofertas a governantes.

Donativos: “Não passa pela cabeça de ninguém que não seja prestadas contas”

E porque a palavra mais usada nesta conversa com o pivot, José Alberto Carvalho, foi “insinuação”, Manuela Ferreira Leite aproveitou para falar de outra, no seu entender, criada esta semana, no que se refere ao paradeiro dos donativos recolhidos durante o verão para ajudar a recuperar as vidas das vítimas dos incêndios na zona de Pedrogão Grande.

Se viesse a saber que os dinheiros que foram angariados, com uma generosidade extrema por parte da população portuguesa, tinham tido desvios criticáveis, tinha uma desilusão semelhante à que tive quando soube que não era o Menino Jesus que dava as prendas no Natal (…) possivelmente no futuro a grande maioria das pessoas pensava duas vezes, se houve outra necessidade semelhante”, comenta.

“Não passa pela cabeça de ninguém que não seja prestadas contas”, acrescenta, embora a social- democrata admita que possa não ter passado o tempo suficiente para que tal seja feito, porque o processo é muito moroso.

“A corrupção tem uma dimensão tão grave que acho perigoso que seja atirada como insinuação. Ou bem que se sabe, ou não.”

Dá a sensação de um país que está doente. Que em tudo vê mal e um perigo”, conclui a antiga governante.

Autoeuropa: “O problema é que neste momento se envolveu os sindicatos”

Além do impacto que a Autoeuropa tem no país, neste momento, a construção de um carro novo foi fortemente negociada para que acontecesse em Portugal. É uma conquista que não pode deixar de ser registada.

“Nunca houve alguma greve e agora se percebe que foi fruto de negociação, sempre com uma pessoa, que, pelos vistos, era insubstituível [António Chora, presidente da comissão de trabalhadores, que se reformou].”

O problema é que, neste momento, se envolveram os sindicatos. E digo que é um problema porque os sindicatos, ao representarem, deviam representar o interesse dos trabalhadores, mas percebeu-se, por esta atuação que, a despeito da comissão de trabalhadores já ter chegado a um acordo com a empresa, tomou conta dos trabalhadores (…). O sindicato não esteve a defender os trabalhadores. Esteve a defender o seu prestígio à custa dos trabalhadores,” critica Ferreira Leite.

Para a ex ministra este é um reflexo da fragilidade dos sindicatos, um pouco por toda a Europa.

Orçamento do Estado para 2018: dificuldade de mexe do IRS e impossibilidade de toca no IRC

O ponto mais sensível da discussão do Orçamento do Estado para 2018 vai ser a questão dos impostos, garante a ex ministra das Finanças do PSD, no seu comentário na TVI.

Era importantíssimo mexer-se no IRC, reduzi-lo. Porque as empresas têm um papel fundamental na criação de emprego e no desenvolvimento económico. E não creio que aí haja grande discussão porque os partidos que apoiam o Governo nem querem ouvir falar disso. Continuam a falar da tributação do grande capital sem se aperceberem que não há grande capital. Já não existe. Existe pequeno e talvez médio", afirma Ferreira Leite.

"No IRS vejo uma situação difícil de gerir, sobre os escalões e para quem deve ser reduzidos. O problema é muito complexo porque não há a mínima forma de reduzir o IRS em determinado setor de contribuintes, sem implicar aumento da redução para os outros", acrescenta.

Sendo claro que o Estado não terá condições de perder receita total com este imposto, só o agravamento para quem paga mais fará o equilíbrio, mas Ferreira Leite acredita que não será possível fazer tal porque, "se o argumento é mexer nos escalões, por uma questão de justiça social..... justiça social não é só progressividade nos impostos, mas também liberdade e a autonomia de cada um de ganhar, trabalhando, quanto entender e conseguir.”

Não se pode surgir um imposto com a ideia de punição a quem ganha muito. Porque o ganhar muito não é criticável (...) A arbitrariedade agrava a justiça social. Não é certo que maior progressividade se traduza e mais justiça social", conclui.