O dirigente histórico socialista Manuel Alegre elogia o início de mandato do Presidente da República, salientando estar-se perante um chefe de Estado "culto" e "próximo" dos portugueses, e pede ao Governo mais ação na diplomacia extra europeia.

Tenho visto com muito bons olhos a forma como o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, iniciou o seu mandato. É um Presidente da República culto, é um Presidente da República que percebeu que o povo português tinha necessidade de proximidade e de afetos, é um Presidente da República que se tem comportado como o Presidente de todos os portugueses", declara Manuel Alegre em entrevista à Lusa.

Até agora, segundo Manuel Alegre, Marcelo Rebelo de Sousa "tem defendido a estabilidade política numa perspetiva de boa cooperação institucional com o Governo e com os restantes órgãos de soberania".

"Até agora, o Presidente da República não tem exorbitado os seus poderes e tem assumido um discurso mais otimista e de esperança. Em relação ao resto do mandato, vamos ver", completa o dirigente histórico socialista.

Manuel Alegre diz ter gostado especialmente da informalidade que caraterizou a recente visita de Estado de Marcelo Rebelo de Sousa a Moçambique.

Marcelo Rebelo de Sousa foi "genuíno - e eu gosto das coisas genuínas".

"Entre o Presidente da República e o povo moçambicano houve afetividade reciproca. Mas a política externa tem de ser feita pelo Governo e não tenho aí visto nada de novo do Governo em relação a África. É preciso ir mais longe", declara, aqui num recado direto ao executivo de António Costa.

Neste ponto, Manuel Alegre sustenta que Portugal "tem uma dimensão euroatlântica e euroasiática, tendo por isso de ter uma política externa mais ativa".

"Um país pequeno como o nosso, mas com uma grande História, precisa de ter uma política externa muito forte. Penso que António Costa tem estado muito bem em relação à Europa, mas é preciso pensar numa estratégia nacional não só para a Europa, mas também para todo o mundo, em especial para os países de língua oficial portuguesa", adverte.

Em relação às controvérsias sobre a forma de funcionamento interno do PS, Manuel Alegre recusa-se a comentar casos concretos, alegando estar "fora da vida política ativa". "Pertenço a um PS muito diferente, do antifascismo, da revolução e da luta pela liberdade. Estamos agora perante uma geração nova e sinto-me perto de alguns dos mais novos", refere. No entanto, o ex-candidato presidencial deixa também uma advertência: "Espero que não haja uma rutura com a memória e a História do PS".

"Gostaria de ver mais debate político, que é bom para a democracia", acrescenta.

Acordo com o PSD seria um atentado ás "vítimas da governação da direita"

Confrontado com a posição do eurodeputado socialista Francisco Assis de que o sentido reformista do atual Governo está bloqueado pelo "conservadorismo" do PCP e do Bloco de Esquerda em matérias como o Estado social, Manuel Alegre responde: "Ouvi essas declarações de Francisco Assis, por quem tenho amizade e consideração, mas discordo em absoluto delas".

Este Governo não está nem bloqueado nem manietado pelo Bloco de Esquerda e pelo PCP. Pelo contrário, esses partidos tiveram a coragem de contribuir efetivamente para acabar com o flagelo de um Governo de direita", contrapõe Manuel Alegre.

Ao contrário do que defende Francisco Assis, Manuel Alegre acredita que uma solução que mantivesse o quadro político anterior "contribuiria para retirar ao PS a sua autonomia estratégica". Um eventual entendimento com o PSD, para Manuel Alegre, "sobretudo nas condições atuais, seria um atentado à base eleitoral" do PS, mas também um atentado contra todos aqueles que foram vítimas da governação da direita".

"E seria também um atentado à razão histórica do PS. Para fazer o que a direita faz, não são precisos partidos socialistas", salienta.

Se não houvesse esta mudança, o PS estaria capturado pelo PSD. O mérito de António Costa foi ter sabido virar a página. Se me permitem a imodéstia, sempre com o meu apoio em momentos decisivos", vinca.