O comunista Vasco Cardoso, membro da comissão política do PCP, considerou esta quinta-feira que o apoio de 74 personalidades estrangeiras ao Manifesto dos 70, que defende a reestruturação da dívida portuguesa, é um reconhecimento de que a situação atual é insustentável.

Em declarações à agência Lusa, Vasco Cardoso estranhou que não devia ser necessário que tivesse de ser «a inteligência estrangeira» a defender uma posição para a qual os comunistas já alertam há três anos.

«Consideramos que não devia ser propriamente necessário vir a inteligência estrangeira reconhecer aquilo que o PCP há muito defende», afirmou.

Segundo avança hoje o jornal Público, 74 figuras estrangeiras de renome na economia e de instituições internacionais subscreveram o chamado Manifesto dos 70, um documento apresentado na semana passada por também 74 nomes portugueses ligados a partidos, associações ou empresários na qual se defende a necessidade de renegociar a dívida.

«De facto, estamos perante uma dívida pública que é insustentável e que não pode, em nome do pagamento dessa dívida e dos juros agiotas que lhe estão associados, prosseguir uma política de destruição do país», afirmou Vasco Cardoso.

Por isso, o comunista congratulou-se com o facto de «alguns daqueles que durante os últimos 3 anos estiveram calados relativamente a este problema» conseguirem agora «reconhecer a razão do PCP» e disse que, «mais cedo ou mais tarde, será a própria realidade a impor-se e a impor um processo de renegociação».

Para Vasco Cardoso, o problema é que «o Governo e determinados setores do capital estão em estado de negação relativamente à dimensão da dívida», já que «apesar dos imensos sacrifícios que foram impostos ao povo português, a dívida aproxima-se de um valor de cerca de 130% do Produto Interno Bruto e estão a ser retirados ao povo português mais de 7 mil milhões de euros de juros por ano».

Além disso, lembrou, perspetiva apresentada pelo Presidente da República é a de manter esta política «durante os próximos 20 anos e isso é absolutamente insustentável».

Entre os apoiantes do Manifesto português encontram-se nomes como o de José Antonio Ocampo, antigo ministro das Finanças da Colômbia e secretário-geral adjunto das Nações Unidas, atualmente consultor da ONU e do Independetn Evaluation Office do FMI, além de Stephany Griffith-Jones, responsável pela apresentação do relatório sobre regulação financeira global na última reunião dos ministros das finanças da Commonwealth.

O dinamarquês Beng-Ake Lundvall, secretário-geral de Globelics e perito do Banco Mundial é também uma das personalidades que integra o manifesto internacional.

Há cerca de uma semana o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, acusou os subscritores do manifesto pela reestruturação da dívida de serem «os mesmos que falavam na espiral recessiva» e citou o Presidente da República, Cavaco Silva, apoiando a ideia expressa pelo chefe de Estado no passado segundo a qual falar em reestruturação da dívida seria um ato de «masoquismo».