O ex-presidente da República, António Ramalho Eanes, lamentou esta sexta-feira a morte de Nelson Mandela considerando que o seu contributo para a «união» de toda a população da África do Sul o tornou num «ícone sagrado» para o mundo.

«Foi realmente ele, contra tudo e contra todos, que, com a sua inteligência e virtuosa ação, conseguiu unir toda a população da África do Sul - negros, brancos, mestiços e indianos ¿ a ponto de se tornar um ícone sagrado para o mundo¿, afirmou Ramalho Eanes numa nota enviada à Lusa.

Uma ação «ímpar» e «virtuosa» conseguida graças aos «talentos de espírito e ao bom caráter» do antigo Presidente sul-africano, mas sobretudo «o seu longo, frutuoso e martirizado percurso de perfectibilização pessoal e de responsabilização social», disse.

Cavaco destaca coragem política de Mandela



Sampaio recorda homem de «extraordinária personalidade»



«Nesse percurso, papel relevante tiveram a cultura ocidental que recebeu na universidade e a doutrina cristã. Nelas colheu aquilo que seria o fermento, a força utópica da sua reflexão filosófica e da sua ação: 'a dignidade humana é a mesma em todo o lado e para todos'», acrescentou à Lusa.

Ramalho Eanes lembrou o encontro com Nelson Mandela e a mulher Graça Machel, em 2009, quando se deslocou à África do Sul em representação do Presidente da República de Portugal para a posse do presidente Zuma.

«Fiquei com a imagem de um sábio tranquilo, satisfeito com o que fizera pela África do Sul e confiante de que o processo de perfectibilização, social e política, que protagonizou, continuará e que os sul-africanos irão aprender a respeitar-se mutuamente e trabalhar em conjunto para construir um futuro comum melhor».

O antigo Presidente da República destacou ainda a contribuição «prudencial do seu longo e martirizado percurso pessoal e de responsabilização social».

Ramalho Eanes classificou ainda de «notável e coerente a política de verdade e reconciliação, uma política», que o levou a criar a Comissão de Verdade e Reconciliação encarregada de apurar, mas não punir, os factos ocorridos durante o apartheid.

A morte de Nelson Mandela, aos 95 anos, foi anunciada na quinta-feira à noite pelo Presidente da República da África do Sul, Jacob Zuma, motivando de imediato uma série de reações de pesar de diversas personalidades e instituições de vários setores de todo o mundo.

«A nossa nação perdeu o maior dos seus filhos», disse o presidente sul-africano, anunciando que a bandeira sul-africana vai estar a meia-haste a partir desta sexta até ao funeral, que será de Estado, e cuja data ainda não é conhecida.

O Comité Nobel norueguês considerou já hoje Nelson Mandela, que esteve preso quase trinta anos pela sua luta contra o regime apartheid da África do Sul, «um dos maiores nomes da longa história dos prémios Nobel da Paz».

Mandela foi o primeiro Presidente negro da África do Sul, entre 1994 e 1999.