O ex-chefe da diplomacia portuguesa e atual presidente do Conselho de Administração do banco BANIF, Luís Amado, disse hoje em Lisboa que a falta de investimento em segurança e estabilidade em África dificulta o incremento dos programas de desenvolvimento.

«Sem segurança não há condições para a ajuda ao desenvolvimento. Sem estabilidade ninguém investe um tostão em África», criticou Luís Amado, que intervinha na primeira edição das Conferências de Lisboa, que decorrem na Fundação Calouste Gulbenkian desde quarta-feira.

Durante o debate sobre o «financiamento do desenvolvimento e a cooperação», Luís Amado referiu o caso da Guiné-Bissau para exemplificar as situações de instabilidade militar, com «golpe de Estado atrás de golpe de Estado», que em nada beneficiam a ajuda ao desenvolvimento.

«Não fomos capazes, no Ocidente, de resolver a situação» de insegurança e promoção de estabilidade acrescentou Amado, levantando a questão da China que - há dezenas de anos consegue participar em planos de cooperação - mas, sublinha, através de um Estado de partido único (Partido Comunista Chinês).

«Nós, há trinta anos, dizíamos que a China ia rebentar em poucos anos por causa da liberalização económica. Mas o certo é que o modelo da China assente no partido único não rebentou», disse Luís Amado, alertando ser necessário um debate, sobretudo na Europa, para se conseguirem alternativas no Ocidente, nomeadamente no investimento nas missões de paz.

Sobre a temática do financiamento, o angolano Lopo do Nascimento, mostrou-se cético em relação aos modelos que são aplicados sobretudo no continente africano.

«Pode vir o dinheiro que vier mas se internamente não se criarem condições nada acontece. O volume de ajuda feita em África é muito grande e a situação é pior do que há 20 anos. Vejam-se as situações na República Centro Africana ou no Mali», criticou Lopo do Nascimento, ex-primeiro-ministro de Angola (1975-1978).

Para Lopo do Nascimento, os condicionalismos que existem à cooperação são uma barreira à própria cooperação e ao desenvolvimento.

«A visão dos países desenvolvidos (que financiam a cooperação) é evitar que haja miséria. O Ébola é uma doença da miséria», afirmou Lopo do Nascimento, atualmente presidente do Comité Executivo do Centro de Estudos Sociais e Desenvolvimento, de Luanda, defendendo o investimento urgente no setor da educação.

«A Coreia do Sul e o Japão receberam ajuda dos Estados Unidos depois da guerra (Segunda Guerra Mundial) e em África? Não é por culpa das pessoas. A questão da educação é fundamental. Podem pôr o dinheiro que quiserem mas não vai fazer nada se não houver educação», destacou o ex-primeiro-ministro de Angola.

Mesmo assim, Ana Paula Fernandes, delegada portuguesa no Comité de Ajuda ao Desenvolvimento da OCDE, referiu que há atualmente experiências triangulares «importantes» e que envolvem países como a China e o Japão na cooperação em África.

Para a responsável, este tipo de cooperação permitem «alavancar» diferentes experiências evitando as agendas individuais de cada país.

A primeira edição das Conferências de Lisboa termina hoje com as participações do vice-primeiro-ministro Paulo Portas e de António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa e líder do Partido Socialista, na oposição em Portugal.