O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros Luís Amado considerou esta quarta-feira que a Europa está a lidar com crise dos refugiados com “muita dificuldade”, e Portugal deve encontrar “uma forma” de responder ao problema “na medida das suas responsabilidades europeias”.

Os estados europeus “estão a lidar com a situação com muita dificuldade, como se vê, com algumas contradições que evidenciam a realidade política da União Europeia”, disse Luís Amado à agência Lusa, à margem do Encontro Internacional da Economia Criativa Lusófona, que decorre até sábado no Funchal.

“A União Europeia não é um Estado, não tem um governo, não tem um centro de decisão. Pelo contrário, é um conjunto de estados com políticas diferentes e, designadamente, a crise tem revelado a falta de harmonia e de coerência da política europeia em relação aos refugiados, fragmentada segundo os interesses dos estados, as visões dos estados”, sublinhou.


Luís Amado frisou que é esta realidade que “está a emergir no contexto desta crise” e que, na sua opinião, ainda vai agudizar mais ”à medida que a crise se for agravando”.

Para o antigo MNE, os estados europeus não estavam preparados para lidar com esta crise. “A legislação europeia não se adequa a uma situação tão excecional como esta e as instituições também estão um pouco desorientadas face à pressão do problema e à sua magnitude”.

Relativamente a Portugal, Luís Amado defendeu que tem que encontrar “uma forma de responder, na medida das suas responsabilidades europeias, à dimensão do problema”.

“É um problema europeu no seu conjunto e, nessa perspetiva, no contexto das responsabilidades europeias, o país tem que saber dar resposta à situação, que é uma situação difícil”, sustentou.

Para Luís Amado, Portugal tem que desenvolver “uma política de abertura ao mundo e de um certo internacionalismo progressista capaz de o ajustar à realidade do mundo em transformação muito rápida”.

“O país tem essa responsabilidade histórica até pela relação que tem com outras civilizações, povos, outras culturas e também pelo facto de ter uma diáspora praticamente em todos os continentes”, defendeu.

Luís Amado está convicto que a sociedade civil, a igreja e as instituições públicas serão capazes de “dar uma resposta apropriada e proporcional ao peso que o país tem no contexto europeu”.

A situação dos refugiados foi abordada no encontro pelo presidente da Governo Regional da Madeira, Miguel Albuquerque, afirmando que há questões com as quais a sociedade não deve ser tolerante.

“Não devemos ser tolerantes com a ignorância, não devemos ser tolerantes com o sectarismo e não devemos permitir ou sequer tolerar qualquer princípio de racismo”, afirmou Miguel Albuquerque, aludindo a comentários xenófobos divulgados na internet sobre o acolhimento de refugiados.

“No momento em que começámos a discutir na Europa questões que eu pensava, e muitos de nós pensávamos, que estavam definitivamente encerradas, é muito importante exercermos nestes encontros aquilo que são os princípios fundamentais de abertura, de afetividade e compreensão das diversas culturas e valores”, defendeu.

Citando a embaixadora do encontro e criadora do movimento Change It, Ana Rita Clara, Miguel Albuquerque afirmou que é necessário continuar a fazer tudo para “mudar o que é preciso mudar para termos as sociedades a colaborarem e as pessoas a falarem e a encontrarem-se umas com as outras”.