Na corrida às autárquicas, o meio de transporte interessa. E Assunção Cristas ou Jerónimo de Sousa que o digam (perceba mais abaixo). Os partidos políticos testam a aprovação/reprovação dos portugueses aos quase dois anos de governação socialista, com o apoio à esquerda.

A “geringonça” que Passos Coelho sistematicamente atacou nestes dias, nomeando-a assim mesmo. O PS, partido do Governo, não conseguiu fugir a Tancos (o material roubado, esse, é que não há meio de aparecer), mas ao mesmo tempo questões económicas para embandeirar.

Dentro da geringonça, mas a colocar-se longe de polémicas como esta, Catarina Martins apontou o dedo às “trágicas maiorias absolutas” e quer que o BE - sem nenhuma câmara de momento - dê o "salto". Jerónimo de Sousa acha que o BE vai é de "bicicleta".

Estará Portugal dividido em 2017 como nas eleições legislativas em 2015? Sabemos que nas autárquicas muitos votam pelas pessoas e não tanto pelo partido ou movimento que representam, mas há tradições que vamos ver se se mantêm. E a abstenção tem sido um grave problema em Portugal, de tão elevada que é (47,4% nas últimas autárquicas).

Fazer uma retrospetiva resumida à campanha eleitoral de cada partido será útil para perceber as prioridades, as tricas, as críticas, as expectativas.

António Costa - Partido Socialista

Lusa

Apesar de os discursos terem sido muito focados na abstenção, que o PS classificou de "principal adversário", o PSD foi alvo de críticas nesta disputa eleitoral, marcada também pelo apelo ao voto para que seja dada continuidade ao trabalho feito no Governo.

António Costa, o secretário-geral, apareceu de noite e aos fins de semana, em virtude das suas funções como primeiro-ministro. Ana Catarina Mendes ia liderando a caravana socialista.

A presença de Costa conferiu um caráter nacional à campanha. O furto de armas em Tancos entrou no debate, bem como a dívida pública, os fundos comunitários, mas também o modelo de governação do PS, que contou com a saída do rating de Portugal do lixo nestas duas semanas de campanha. "A realidade todos os dias desmente a narrativa da oposição", disse numa das ocasiões.

Chegou, em Loures, a acusar o PSD de perder "o sentido de Estado" e de ter um “discurso do diabo”. "Não resistiram à tentação de ensaiar uma nova estratégia e fazer de Loures um balão de ensaio" - com a candidatura autárquica de André Ventura [que fez declarações polémicas sobre os ciganos] - para uma tática "populista que aposte no medo e insegurança para atrair votos".

Críticas aos parceiros à esquerda, que não são parceiros nas autárquicas, foram quase sempre proferidas por candidatos a autarcas ou outras figuras que não os líderes do PS. O PCP - que, na coligação CDU, detém diversas câmaras – foi um alvo maior do que o Bloco de Esquerda.

Passos Coelho - Partido Social-Democrata

Lusa

A campanha do PSD para as autárquicas foi dominada por temas nacionais, como a subida do rating da dívida (para lembrar o que foi feito enquanto Passos Coelho foi primeiro-ministro e não ser só o PS a “colher” os frutos) ou o caso de Tancos, para atacar o executivo de António Costa. Notou-se a gestão prudente de Passos quanto às expectativas em relação aos resultados eleitorais.

O ex-primeiro-ministro e líder do PSD disse por três vezes que quer voltar a ser primeiro-ministro em 2019 (e em melhores condições do que em 2011). Nestas autárquicas, quer que o seu partido fique em primeiro (há quatro anos teve menos 44 câmaras que os socialistas, coligações incluídas). Porém, Passos admitiu que os sociais-democratas podem não conseguir esse objetivo. Mesmo com esta prudência no discurso, acredita num “bom resultado”. Tem também frisado que a leitura nacional será “um somatório” das 308 eleições locais.

Muitas vezes tendo como alvo os partidos da “geringonça”, expressão que utiliza agora de forma sistemática, insistiu nas contradições internas entre o PS, de um lado, e o PCP e BE, de outro, sobretudo em matérias de Europa e de defesa.

Passos Coelho teve alguns contactos com a população e foi, de modo geral, bem recebido, mostrando-se mais distendido do que em outras campanhas, quando era primeiro-ministro, e parando para fotos, conversas e até autógrafos com populares. Ainda assim, a campanha laranja evitou as grandes arruadas, estratégia que o líder do PSD não atribui ao receio do risco mas ao facto de o seu périplo ter por estratégia integrar-se na campanha desenvolvida localmente pelos candidatos.

Passos Coelho não esteve em Sintra, onde uma coligação PSD/CDS-PP/MPT/PPM apoia o candidato Marco Almeida, nem em Loures, onde o candidato do PSD André Ventura vai somando polémicas. O único ex-líder a marcar presença foi Santana Lopes, mas o mais assíduo tem sido o ex-líder parlamentar Luís Montenegro.

Catarina Martins - Bloco de Esquerda

Lusa

O BE quer contratiar o rótulo de não ser um partido autárquico (perdeu Salvaterra de Magos, a única câmara que tinha, em 2013). Catarina Martins prometeu fazer nos municípios o que tem conseguido no país, sem deixar ninguém para trás. 

Há quatro anos, o BE ficou reduzido a oito vereadores e apenas 2,42% dos votos. Desta vez, com outro ânimo, a coordenadora bloquista traçou cedo os objetivos eleitorais: dar um "salto", mudar o mapa autárquico e ser determinante em cada um dos concelhos a que concorre - 131 sozinho e coligado apenas no Funchal.

O discurso de campanha ficou sempre bem longe do furto de armas de Tancos, polémica que aqueceu a troca de acusações entre a direita e o PS desde a manchete do Expresso do último sábado. Catarina Martins preferiu apontar a arma às "trágicas" maiorias absolutas - abrindo a porta a novas geringonças autárquicas.

Ficou evidente uma situação de tensão com o PCP, parceiro da geringonça, quando Catarina Martins se referiu ao silêncio cúmplice de autarcas perante as maldades da troika. Declarações que levaram a uma reação violenta de Jerónimo de Sousa, que falou mesmo em ignorância. Catarina respondeu apenas que o "BE não ataca o PCP". Houve também avisos e exigências para o Governo socialista, porque é preciso "fazer o que ainda não feito", sobretudo no Orçamento do Estado para 2018, cuja negociação corria em paralelo.

Transparência, habitação e transportes públicos e de qualidade são as grandes prioridades autárquicas do BE para estas eleições. Catarina Martins assumiu o objetivo de reconquistar a presidência de Salvaterra de Magos e ser a surpresa em Torres Novas, com a ex-deputada e vereadora Helena Pinto a chegar à liderança dos torrejanos.

Assunção Cristas - CDS-PP

Lusa

Assunção Cristas é a única entre os líderes partidários a ser candidata a uma câmara. Concentrou, por isso, a campanha em Lisboa. De resto, foi apenas a Leiria, círculo eleitoral por onde costuma ser eleita deputada e a Setúbal, para dar visibilidade à coligação com o PSD em que o CDS lidera. Entrou pouco no 'bate-boca' de temas nacionais. Mas procurou descredibilizar o que chamou de 'leilão' das "esquerdas unidas", a propósito do Orçamento do Estado para 2018.

Elegeu a habitação, ação social e mobilidade como os grandes temas e usou adereços a condizer: coletes refletores para distribuir panfletos entre os automobilistas e para colocar 'multas' surpresa com propostas do CDS nos para-brisas, capacete para andar de mota e chapéu de palha para apresentar, a bordo de um catamaran, propostas para a economia azul.

Em clima de otimismo, mas sempre evitando quantificar objetivos nacionais e na capital, a líder centrista entusiasmou-se a meio da campanha com uma metáfora automobilística e disse que o partido está animado para que os seus presidentes de câmara deixem de caber num carro de cinco lugares (Ponte de Lima, Albergaria-a-Velha, Vale de Cambra, Velas e Santana são as atuais autarquias centristas)

Assunção Cristas contou com o apoio do ex-líder Paulo Portas, no antepenúltimo dia de campanha. Para trás ficou a aparição de um outro líder, Manuel Monteiro, que participou numa ação da lista à junta de Alvalade, que é encabeçada pelo presidente da Juventude Popular de Lisboa, Francisco Camacho.

Jerónimo de Sousa - Partido Comunista 

O secretário-geral do PCP foi pródigo em metáforas nesta campanha. Antecipou que a CDU vai conservar ou aumentar votações, o PS "não conseguirá essa onda, um voo tão célere, em termos de resultados eleitorais" e o BE andará "na sua bicicleta". Disse-o em entrevista de balanço da campanha à agência Lusa.

Jerónimo de sousa destacou os "avanços" nos "rendimentos e direitos roubados pelo Governo PSD/CDS" e enfatizou o papel de PCP e PEV no parlamento, influenciando políticas que o PS "nunca adotou ou adotaria".

Reconheceu que o partido do Governo é "o adversário" nas regiões de maior implantação da CDU - "cintura da ferrugem", de tradição operária, da Grande Lisboa e da península de Setúbal e o mais rural Alentejo, zonas bastante batidas por estes dias pela caravana CDU.

Jerónimo de Sousa, de 70 anos e prestes a comemorar 13 à frente do PCP quer que a CDU (que ficou em terceiro em 2014, com 34 câmaras) cresça nestas eleições "sempre com uma cautela muito grande" porque a "onda de simpatia" ou o "bom ambiente" não são sinónimo de "resultado eleitoral".