Há um elefante na sala e ninguém o pode mencionar. A detenção de José Sócrates prometia dispersar a atenção da «alternativa» que o PS quer apresentar ao país, mas, desde o primeiro momento, António Costa pediu aos socialistas para «separar os sentimentos da política». E, ao final do primeiro dia de congresso, parece que o pedido resultou.

Pedido ou algo mais? «A ordem que existe no partido é que não convém falar muito nesse assunto», afirmou Almeida Santos aos jornalistas, já ao final da manhã, depois de à chegada ter efetuado declarações duras sobre a prisão preventiva de Sócrates:

«No meu entender, esta prisão não tem a menor justificação. Isto não pode fragilizar o PS, só pode fragilizar a própria justiça se vier a ser absolvido».


Nos corredores, o nome de José Sócrates não era tabu. Até a ex-ministra Gabriela Canavilhas confirmava à TVI24 que «é evidente que há uma sombra que vai parar sobre o congresso».

«Todos nós temos afetos e sentimentos em relação a José Sócrates, mas ficam à porta».


E ficaram, quase sempre. No púlpito, só o próprio António Costa e Manuel Alegre «furaram» a «ordem». Durante a primeira intervenção perante os delegados, o secretário-geral nunca mencionou o nome do ex-primeiro-ministro, mas admitiu o «choque brutal» com as notícias da última semana.

«Todos temos sabido separar os sentimentos da política e todos temos sabido mostrar a fibra de que se faz um partido como o PS, a fibra daqueles que, contra ventos e marés, acreditam e não resvalam na sua confiança no Estado de Direito e nos seus valores essenciais».


Num congresso com cerca de 1800 delegados, parecia impossível controlar todas as intervenções. «Espero que a ordem seja cumprida, mas nunca posso garantir», admitiu Almeida Santos, para quem António Costa fez apenas «uma referência hábil e suficiente» do caso que envolve José Sócrates.

No entanto, foi mesmo isso que veio a confirmar-se. Entre as dezenas de intervenções durante o congresso, nem por uma vez se ouviu o nome José Sócrates. Só Manuel Alegre, com a liberdade oratória própria de um histórico do partido, voltou a abordar o assunto, elogiando os socialistas por saberem responder a um «forte choque emocional».

«Não era fácil, mas conseguimos. Essa é uma grande vitória política de António Costa. Aqueles que têm outra agenda, desiludam-se. Somos um partido livre e fraterno. Somos um partido que não muda fotografias, somos um partido sem medo. Não estamos ensombrados e não temos medo de fantasmas».


E se, dentro do congresso, como comentava Constança Cunha e Sá na TVI24, parecia que os socialistas tinham «engolido uma cassete», fora dele o assunto mantinha-se, até porque três deputados do PS fizeram uma espécie de «intervalo» nos trabalhos para ir a Évora… visitar Sócrates.

Entre o discurso de Costa e as intervenções da tarde, Isabel Santos, Renato Sampaio e André Figueiredo foram ao Estabelecimento Prisional onde se encontra o ex-primeiro-ministro, mas não revelaram se este está a seguir os trabalhos do congresso. Se estivesse, podia ouvir João Cravinho comentar na TVI24 as visitas à prisão:

«Temos de ver isso com respeito, como uma manifestação de amizade, e não como uma manifestação política. Se fosse manifestação política, a mensagem à saída seria outra. António Costa não se insurge contra sentimentos de amizade. Em momentos como este, de grande tensão, é natural que os amigos de Sócrates tenham estas manifestações e devemos entendê-las no sentido humano».


Também poderia ouvir Vera Jardim a admitir que a sua detenção «causou algum embaraço e interrogações» entre os socialistas ou as várias intenções de o ir visitar futuramente à prisão, como os casos de João Soares ou Sérgio Sousa Pinto. O PS, e tal como Costa desejava, conseguiu afastar o nome de José Sócrates das intervenções políticas durante o congresso, mas não o esquece.