O ex-primeiro-ministro José Sócrates considerou hoje que a declaração da chanceler alemã sobre o ensino em Portugal «é absolutamente surpreendente» e «estranha aos ouvidos daqueles que se bateram pelo projeto europeu».

«Não resisto a fazer um comentário relativamente a essa declaração [da chanceler alemã] absolutamente surpreendente e que nunca pensei ouvir. É estranha aos ouvidos daqueles que se bateram nos últimos 30 anos pelo projeto europeu», disse o ex-governante.

José Sócrates falava, em Castelo Branco, durante a apresentação do livro do ex-secretário de Estado da Educação Valter Lemos, intitulado «A influência da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico] nas políticas públicas de educação em Portugal».

O ex-primeiro-ministro referia-se à declaração de Angela Merkel sobre o número de licenciados em Portugal.

«Se quisermos contrariar aquilo que foi dito, basta irmos aos números da OCDE», que referem a percentagem de licenciados em Portugal, comparativamente com os de outras sociedades europeias, siblinhou.

«Os últimos números da OCDE, de 2012, andam à volta de 17% de licenciados em Portugal, enquanto na União Europeia (UE) a média anda nos 25%», recordou.

Uma das vantagens da OCDE, prosseguiu, «é que nos dá imediatamente números comparáveis para podermos desmentir afirmações tão levianas como as que foram produzidas pela chanceler alemã».

«Não, Portugal não tem licenciados a mais, tem licenciados a menos», sublinhou o ex-primeiro-ministro.

José Sócrates sublinhou ainda que «houve alguns» que imediatamente se prestaram a dar alguma razão à chanceler alemã.

«Não tem razão quem diz que há licenciados a mais em Portugal, tal como não têm razão aqueles que dizem que no espírito da dirigente europeia estaria a ideia de que Portugal devia apostar mais no ensino profissional», referiu.

«Portugal é um dos países que mais apostaram no ensino profissional nas últimas décadas e, em particular, na ultima década», sustentou o ex-primeiro-ministro.

Segundo os dados que referiu, entre 2001 e 2011, altura em que saiu do Governo, o número de alunos no ensino secundário em cursos profissionais passou de 33 mil para 115 mil, aproximando-se da média europeia.

Portanto, «a ideia de que não investimos o suficiente no ensino profissional é falsa. Portugal foi um dos países que mais progrediu», sublinhou.

O ex-primeiro-ministro realçou que «foi a primeira vez que ouviu coisa semelhante» e adiantou que não se lembra de «declarações tão contrárias aquilo que é o espírito e o projeto europeu».

José Sócrates entende que esta declaração da chanceler alemã «tem uma motivação política lamentável». «Não é apenas um erro, encerra uma visão política que é muito preocupante», concluiu o ex-chefe do Governo.