“O objetivo era impedir minha candidatura à presidência do país e que o Partido Socialista não ganhasse as eleições. Conseguiram os dois”, disse José Sócrates. 

A afirmação de José Sócrates foi feita numa entrevista à edição brasileira do jornal El País, a propósito da Operação Marquês, processo no qual é arguido.

Afastado assim, no seu entender, da corrida a Belém, o antigo Chefe de Governo português, na conversa ao diário, teceu comentários ao recém-eleito Presidente da República.

“Vejo o alvoroço diário de sua presidência como uma necessidade de querer sublimar a frustração por ter sido afastado da política durante 20 anos”.

E acrescentou: “Nunca me agradou o seu interesse em querer agradar a todos. O Presidente Marcelo sempre foi um personagem em busca de seu papel político. E descobriu-o finalmente, o papel dos afetos, eixo de todo um novo programa político”.

Já José Sócrates disse não se ter sentido abandonado pelos militantes do PS, só pela direção do partido.

“Nunca me senti verdadeiramente só; conseguiram intimidar a direção do PS, mas não os seus militantes. De certa forma, estou contente de que a direção do PS ficasse afastada, porque há batalhas que é preciso ganhar sozinho, e esta é uma delas”, de acordo com o El País.

José Sócrates e Lula da Silva

Mas não foi só sobre a política interna que José Sócrates fez comentários. A situação política no Brasil também mereceu críticas por parte do antigo Primeiro-Ministro português. De um lado e do outro do Atlântico, José Sócrates encontrou semelhanças entra a sua situação e a de Lula da Silva.

“É curioso o paralelismo; como no meu caso houve detenção abusiva e querem julgamentos populares sem possibilidade de defesa; o que ocorre no Brasil é uma tentativa de destituição sem delito, sem fundamento constitucional. O impeachment de Dilma Rouseff é uma vingança política da direita, que não aceita a derrota nas urnas. Não basta fazer acusações, é preciso fazer julgamento; condenar alguém sem direito a defesa acontece no Brasil e em Portugal, condenar sem julgar; destituição sem delito e sem fundamento (…) é impedir a candidatura de Lula à presidência de 2018. É utilizar a Justiça para condicionar eleições”. 

José Sócrates e a Operação Marquês

A Operação Marquês conta com 12 arguidos, entre os quais o ex-Primeiro-Ministro José Sócrates, que esteve preso preventivamente mais de nove meses.

Segundo a PGR, sobre José Sócrates “recaem suspeitas da prática dos crimes de corrupção passiva para ato ilícito, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais”. 

O diretor do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), Amadeu Guerra, fixou o dia 15 de setembro como prazo limite para a conclusão do inquérito da Operação Marquês. A defesa de Sócrates alegou que os prazos para conclusão da investigação já foram ultrapassados.