O ex-primeiro-ministro José Sócrates criticou hoje o PS por incluir o Tratado Orçamental nos dogmas socialistas e não o debater, defendendo a sua reavaliação porque o próprio tratado prevê esta possibilidade em função dos resultados.

Sob o tema 'O Desencantamento Europeu', José Sócrates deu, este sábado, uma conferência durante os trabalhos da VII Congresso da Tendência Sindical Socialista da UGT (TSS/UGT), na qual teceu duras críticas ao atual modelo da União Europeia, liderada por um "Governo de ninguém", de "burocratas alemães", onde os "tiques da tecnocracia" são visíveis na questão das sanções que podem cair sobre Portugal e Espanha.

Felizmente ainda temos uma parte da esquerda, que não o nosso partido, que fala no Tratado Orçamental. Vejo o nosso partido completamente à margem do debate sobre o tratado orçamental. Parece que o Tratado Orçamental passou a fazer parte dos dogmas socialistas. Não dos meus, por isso falo à vontade", criticou.

O ex-primeiro-ministro socialista aproveitou para esclarecer que, ao contrário do que é dito, "o Tratado Orçamental previa e prevê que ao fim dos anos se pudesse reavaliar", ou seja, "uma reavaliação em função dos resultados".

Não podia haver piores resultados. Alguém pediu uma reavaliação?", questionou.

Sócrates vê "uma esquerda falar em referendo", apesar de compreendo que "haja outros que digam não a referendos".

Mas não acham que estará na altura de, cumprindo o tratado orçamental, alguém pedir a sua reavaliação em face do que aconteceu e do que estará a acontecer?", apelou, criticando um tratado que impõe uma visão neoliberal do mundo.

Numa intervenção que terminou com a ovação dos presentes na sala - e que durou, entre a intervenção inicial e a fase de respostas, quase duas horas - as primeiras palavras do antigo secretário-geral do PS foram de agradecimento por este convite feito pelo TSS/UGT, partindo de imediato para um aviso para dentro do PS.

"Apesar de muitos terem tentado isolar-me da sociedade portuguesa e do país, apesar de muitos terem tentado isolar-me do PS, puderam talvez fazê-lo com alguns, mas eu sempre senti que os militantes do PS não deixaram de olhar para mim como um seu companheiro", atirou, acrescentando que essa operação de o "arrancar do coração dos militantes do PS talvez não tenha sido bem-sucedida".

Mas os alertas para o partido do qual foi líder e pelo qual foi primeiro-ministro não se ficaram por aqui: "todos os socialistas que passaram esta crise, estes últimos anos de 2010 a 2016 e ficaram na mesma, ou não eram socialistas ou não verdadeiramente não perceberam nada".

"Eu evoluí no meu pensamento e a crise ensinou-me muito", admitiu, recordando que há muita gente em Portugal "precisa da voz política do PS e dos sindicatos".

Sócrates não esqueceu a atualidade política nacional e teve tempo para se referir à questão do otimismo, que entrou no discurso pela voz do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, quer quando se assumiu como um otimista realista, quer quando brincou com o "otimismo crónico e ligeiramente irritante" do primeiro-ministro, António Costa.

O político é o profissional do otimismo. Quem não é otimista, não tem nada para propor", disse.

Depois de identificar o primeiro problema da Europa como sendo democrático, o socialista defende que seja eleito "diretamente alguém" para liderar a Europa.

Por favor não me venham mais com essa conversa do Parlamento Europeu. Ninguém liga às eleições do Parlamento Europeu porque nem os partidos metem lá os seus principais dirigentes - eu fui líder do partido e sei do que estou a falar", condenou.