"Em legítima defesa". É desta forma que José Sócrates justifica a sua decisão de gravar vários vídeos para apresentar a sua versão em relação ao caso Portugal Telecom (PT). No canal "Não vem ao caso", o ex-primeiro-ministro apelida o caso de "último embuste" do Ministério Público, criado "a propósito da relação do seu governo com a PT, e diz que a ideia de que o executivo que liderou teve uma "atuação desonesta de favorecimento dos acionistas da PT" é "completamente falsa".

José Sócrates refere-se assim ao fato de dois antigos administradores da PT, Zeinal Bava e Henrique Granadeiro, terem sido constituídos arguidos no âmbito da designada "operação Marquês" por, alegadamente, terem subornado o ex-primeiro-ministro.

Em cinco capítulos, Sócrates fala do "fim do monopólio" graças ao seu governo e apresenta "factos, documentos e números" - recorrendo mesmo a gráficos - para contrariar a versão do Ministério Público.

No início do meu governo a quota de mercado da PT no serviço de televisão era de 80%. Em 2011, no final do governo essa taxa baixou para 35%. O mesmo aconteceu no telefone fixo. Quando o meu governo tomou posse, a quota de mercado da PT era de 94%, em 2011 baixou para 53%. Finalmente na internet. Em 2044 a PT tinha 82% do mercado, em 2011 apenas 49%. Estes números são públicos e oficiais. Em seis anos e em consequência de uma política de promoção da concorrência, fundamental para o êxito do plano tecnológico, o monopólio da PT nos serviços de telecomunicações acabou".

Sócrates passa depois para a "OPA da Sonae" sobre a PT. O ex-primeiro-ministro tem sido acusado de ter agido para "derrotar" esta OPA e de ter favorecido alguns acionistas.

"Esta tem sido a mentira mais repetida pelo Ministério Público, pelos jornais afetos e pelas inacreditáveis intrigas agora recuperadas pela SONAE. Não passa de uma falsidade que é facilmente desmentida pelos factos", afirma.

Sócrates acrescentao que é "confrangedor" que a SONAE tenha esta posição quando Paulo Azevedo lhe pediu, na altura, para que a CGD votasse a favor da SONAE, o que lhe foi negado, provando a neutralidade do governo no processo. E para provar o que diz, mostra um despacho do secretário de Estado com orientações ao representante do Estado para que o voto no processo fosse a "abstenção".

"Esta alegação não tem ponta por onde se lhe pegue", garante.

Sócrates fala ainda do "voto da Caixa Geral de Depósitos", do "veto à venda da Vivo" e da "parceria com a OI". Sobre o primeiro tema, o ex-primeiro-ministro desmente que tenha dado instruções para que o governo votasse contra a Sonae, alegação que considera "completamente falsa", uma vez que todos os nove membros que faziam parte da administração confirmam que não receberam nenhuma instrução do governo.

E vai mais longe, dizendo que mesmo que "se a votação da CGD tivesse sido favorável à OPA, esta ainda assim teria sido igualmente chumbada", uma vez que "a votação contra foi muito expressiva".

Esta iniciativa de Sócrates surge poucos dias depois de ser anunciado que a decisão do Ministério Público sobre o inquérito ‘Operação Marquês’, cujo principal arguido é o ex-primeiro-ministro, deverá ser conhecida até 20 de novembro, após os procuradores terem recebido a última carta rogatória no dia 22 deste mês.

O antigo primeiro-ministro José Sócrates está indiciado por fraude fiscal qualificada, corrupção e branqueamento de capitais.