“Possesso” e com um “total embaraço”. Foi assim que José Sócrates ficou no dia em que esteve em Bruxelas a convencer os líderes da zona euro sobre a eficácia do PEC IV, mas descobriu que o PSD o iria chumbar. Perante o cenário de crise política, a decisão foi a de "incendiar as naus".


 
Os pormenores do dia que precipitou a intervenção externa são revelados no livro “Cercado - Os dias fatais de José Sócrates”, de Fernando Esteves, jornalista da Sábado, que será lançado esta quinta-feira.
 

"O documento é votado pelos membros do Conselho. Sucesso total. Sócrates vence. Angela Merkel não lhe salta para o colo, mas faz questão de lhe mostrar que está contente com o desfecho:
- Parabéns!
Durão Barroso também está eufórico:
- Conseguimos!"

 
Logo de seguida, o ex-primeiro-ministro recebeu a notícia de que Passos Coelho ia anunciar o chumbo. “Fica possesso”, com “total embaraço”, “pede a palavra e deita, derrotado, o tapete ao chão”, descreve um excerto do livro, citado na revista Sábado.
 

“Por telefone, Durão ainda tenta demover o líder laranja. Nada feito”.

 
Quando Sócrates chega a Portugal, liga a Jorge Lacão a transmitir a sua decisão: “Vou fazer como o [Hernan] Cortés: incendiar as naus! Se eles chumbarem o PEC demito-me!”. Hernán Cortés foi um conquistador espanhol que decidiu incendiar as próprias naus para impossibilitar a retirada dos seus homens do México.
 

Injeções para aguentar a última campanha

O livro também relata as “fúrias viscerais” de José Sócrates e o cansaço acumulado na última campanha, em 2011, que acabou por perder para Passos Coelho, conforme o capítulo a que o jornal  i teve acesso.

“Nos derradeiros dois dias na estrada, o socialista estava, de facto, arrasado” e quase sem voz. “Um médico deslocava-se ao final da tarde ao seu quarto de hotel, onde lhe administrava injecções para que aguentasse o comício nocturno”.


O jornalista contou com os relatos de vários ex-colaboradores de Sócrates, que não quiseram, no entanto, identificar-se. Um deles recorda assim o debate televisivo com Passos Coelho, que o então secretário-geral do PS perdeu.
 

“Nunca o tinha visto assim. Há um momento em que parecia desistir (…) acho que ele sempre acreditou que a eleição estava perdida”.

 
Já no discurso de derrota, José Sócrates foi questionado se temia que então se acelerassem os processos judiciais contra ele. A pergunta foi feita por uma jornalista da Renascença. Em privado, “qualificou-a com termos nada católicos”.
 
O jornal Público também cita um excerto do livro, que conta que o ex-primeiro-ministro tinha um estojo de maquilhagem e que, quando não recorria a profissionais, se pintava a si próprio antes de um evento em que alguma televisão estivesse presente.
 

A relação com os jornalistas

O livro de Fernando Esteves conta ainda vários episódios que exemplificam a difícil relação de José Sócrates com jornalistas.
 
Em março de 2014, após José Rodrigues dos Santos ter sido o pivot da RTP no espaço de opinião de Sócrates, este liga ao jornalista e “não esconde o seu desconforto”. O ex-primeiro-ministro acusa José Rodrigues dos Santos de “lhe ter montado uma cilada, uma canalhice”.
 
“Quer saber se o registo é para manter” e “definir os temas a abordar” nos próximos comentários. Segundo conta o livro, José Rodrigues dos Santos rejeita “receber instruções editoriais de um político”, “porque quer respeitar as normas éticas da sua profissão”.
 
Já em abril de 2009, José Sócrates telefona a Judite Sousa antes de uma entrevista na RTP. “Quer conferir os temas a abordar no dia seguinte. Não pretende deixar margem para imprevistos”, lê-se na obra.
 
Um dos assuntos “óbvios” na altura é o Freeport, devido às imagens reveladas pela TVI. Sócrates “começa a subir o tom de voz”, “diz-lhe que não admitirá perguntas insultuosas e começa a colocar em causa os critérios editoriais da estação”.
 
O jornalista da Sábado teve acesso ao diário profissional de Judite Sousa, que Fernando Esteves disse ao i ter sido disponibilizado pela própria, em que é descrito um segundo telefonema:
 

“Continua a conversa onde ela tinha ficado… começa a acusar um grande stresse. Está a antecipar a entrevista. Peço-lhe que explique o que são perguntas políticas e perguntas de investigação. Dou-lhe o exemplo do DVD. Começa a gritar. Tenho de afastar o telemóvel… Diz que já sabia que eu ia falar nisso. Digo-lhe que é uma pergunta incontornável. Continua a gritar. Diz que discorda dos meus critérios editoriais, digo-lhe que não são meus; são da RTP. Nada importa, não ouve o que eu digo. A conversa termina sem nexo. Foi uma tentativa de condicionamento”.

 
Já na prisão de Évora, em novembro de 2014, combina com o editor de Política do Expresso a primeira entrevista após a detenção. O livro relata que Sócrates “coloca condições” e exige que “publiquem uma declaração” sua na edição seguinte do jornal.
 

“Por momentos, parece que se recua no tempo e que Sócrates está a ligar do seu amplo gabinete em São Bento. Começa a dar ordens.
- Já falei com o director da cadeia. Agora liguem para a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais a pedir formalmente autorização. Vêm cá na hora das visitas; eu prescindo de receber pessoas para falar convosco.”

A Operação Marquês

“Cercado” revela ainda alguns pormenores da Operação Marquês, o processo que mantém José Sócrates em prisão preventiva, tais como as 40 entregas de dinheiro feitas ao longo de um ano e que foram vigiadas pelo Ministério Público.
 
Segundo alguns excertos citados pelo Expresso, o empresário Carlos Santos Silva admitiu à investigação ter entregado um total de 550 mil euros em dinheiro a Sócrates.
 
Quando foi interrogado sobre os telefonemas entre ambos, nos quais o MP entende que Sócrates “não pedia, ordenava”, Carlos Santos Silva assegurou que apenas emprestou o dinheiro por amizade e que não o fazia às claras devido ao “estatuto” do ex-primeiro-ministro. O livro cita a contestação da advogada:
 

 “Foi pelo arguido dito e redito ser grande amigo do José, desde a juventude. Estranho seria que assim sendo o José sempre que precisasse da ajuda do amigo tivesse de lho pedir cerimoniosamente.”
 
“Não é de estranhar que ambos quisessem manter uma razoável discrição e reserva, atento o estatuto social do co-arguido José Sócrates, que naturalmente desejava evitar especulações na comunicação social de que o amigo o ajudava a manter um certo estilo de vida”.

O último telefonema antes da prisão

 O livro conta ainda o dia da detenção de José Sócrates, 21 de novembro de 2014, confirmando que este já sabia que ia ser detido e que o advogado João Araújo foi a Paris.
 
O filho ligou-lhe na véspera da detenção a contar buscas em casa e as detenções de Carlos Santos Silva, do motorista João Perna e do advogado Gonçalo Trindade tinham sido detidos.
 
Sócrates pediu então ao advogado para enviar um e-mail ao diretor do DCIAP, Amadeu Guerra, a mostrar disponibilidade para colaborar e tentar evitar assim a detenção.
 

“Durante o dia, o ex-primeiro-ministro desespera por uma comunicação do DCIAP a marcar uma inquirição ou por um simples email de resposta a confirmar a recepção da sua comunicação. Nada. Um imenso e aflitivo silêncio.”

 
Por isso, José Sócrates “sente que é seu dever regressar”. Aterra às 22:30 em Lisboa e ainda faz um telefonema para um amigo, dentro do avião, antes de ver os inspetores e agentes que o detiveram.
 

“- Tenho de desligar, estão ali uns senhores à minha espera…”

A vida na cadeia

Os excertos pré-publicados na Sábado mostram ainda como José Sócrates tem passado os últimos meses na prisão de Évora.
 
Todas as manhãs, o ex-primeiro-ministro faz a limpeza da sua cela e, “regularmente, mede a tensão arterial e toma medicação para o efeito”. Pode telefonar para 10 contactos, num total de cinco minutos por dia. Faz musculação, jogging e joga futebol.
 

“É extremo esquerdo. Não é um portento de técnica, mas empenha-se ao máximo.”

 
O livro relata que Sócrates descobriu que tinha pulgas no quarto quando passeava no pátio do Estabelecimento Prisional de Évora e conversava com um inspetor da PJ detido por suspeitas de corrupção.
 

“- João, o que acha disto? É bicho? Estou cheio de comichão!
O companheiro de cárcere observa atentamente. A imagem é-lhe familiar.
- São pulgas, José. O meu caro tem pulgas!
Sócrates não quer acreditar. Cerra os dentes e explode de raiva.
- Pulgas! Canalhas! Isto é uma canalhice!”