O deputado do PSD Duarte Marques desafiou, na terça-feira, o ex-líder parlamentar José Pacheco Pereira a abandonar o partido pelo próprio pé. O dirigente social-democrata considera “incoerente Pacheco Pereira continuar a ser militante do PSD”, depois de marcar presença numa ação de campanha de Marisa Matias, a candidata às eleições presidenciais apoiada pelo Bloco de Esquerda.

A informação foi divulgada pelo jornal “i”, a quem o deputado Duarte Marques, antigo líder da JSD, comentou a eventual saída de Pacheco Pereira.

 “Acho perfeitamente normal e coerente com tudo o que disse nos últimos cinco anos [a participação na ação de campanha de Marisa Matias]. Estranho seria não apoiar. Na vida política de Pacheco Pereira, a única coisa que é incoerente é continuar a ser militante do PSD. Se pensasse como ele, teria vergonha de ser militante do PSD”, disse Duarte Marques ao “i”.


Nos últimos anos Pacheco Pereira tem-se distinguido como um dos militantes do PSD mais críticos das escolhas políticas e ideológicas da atual direção de Pedro Passos Coelho.

O “i” diz que a possibilidade de expulsão de Pacheco Pereira já foi discutida “ao mais alto nível” dentro do partido. Sobretudo depois de Pacheco Pereira se opor, com duras críticas, à candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, único candidato de centro-direita que será formalmente apoiado pelo PSD e CDS.

O “i” sublinha que não está escrito nos estatutos do PSD que um militante não pode discordar da direção ou da estratégia do partido. Mas as regras são claras quando se trata de apoio, formal ou informal, de um militante social-democrata a uma candidatura adversária. “Cessa a inscrição no partido dos militantes que se apresentem em qualquer ato eleitoral nacional, regional ou local, na qualidade de candidatos, mandatários ou apoiantes de candidatura adversária da que foi apresentada pelo PPD-PSD.” A decisão cabe ao conselho de jurisdição do partido.

Mas, mesmo com o que preveem os estatutos, Ângelo Correia, outro histórico do PSD, também crítico de Pacheco Pereira, teme que a opção pela expulsão faça do historiador um “mártir”.

“Pacheco Pereira deseja ser convocado [pelo partido] e ser mártir. A vontade dele é manter-se no PSD e esperar que o partido lhe aplique alguma sanção”, considera.


Recorde-se que em 2013 houve cerca de 400 militantes sociais-democratas a serem expulsos na sequência das eleições autárquicas de então. António Capucho foi um dos casos mais conhecidos a ser incluído nessa expulsão em massa.
 

“Enfant terrible”


Tudo começou quando Pacheco Pereira anunciou no blogue "Abrupto" que participará em debates das candidaturas de Sampaio da Nóvoa e de Marisa Matias.

"Antes que a comunicação social me torne "propriedade" de qualquer candidatura presidencial, informo que tenho já prevista a participação em debates e colóquios organizados pelas candidaturas de Sampaio da Nóvoa e Marisa Matias e tenho falado pessoalmente sobre a questão presidencial com outros candidatos."


O político diz ter sido “convidado” e que não se furta a “discutir Portugal e os portugueses”. “Se entender vir tomar posição pública, tomá-la-ei, até lá interessa-me mais a discussão e o debate público”, conclui Pacheco Pereira.

Na terça-feira, em entrevista à Antena 1, Pacheco Pereira disse que "para já" não apoia qualquer candidato:

“Uma coisa é participar em ações programadas, outra coisa é apoiar uma candidatura”. 


E se Marcelo Rebelo de Sousa o convidar para participar nalguma ação? “Depende do contexto”, respondeu, sem esconder que vê com bons olhos a candidatura do ex-presidente do PSD. 

Pacheco Pereira reconheceu “o esforço que Marcelo Rebelo de Sousa está a fazer para colocar a sua candidatura no centro-direita”. O que não é fácil, afirmou, uma vez que “o PSD virou tanto à direita que é inevitável que haja fricções entre a candidatura de Marcelo e os partidos que o vão, inevitavelmente, apoiar”, justificou.

Para Pacheco Pereira, Marcelo Rebelo de Sousa "não se limita a colocar a sua candidatura numa posição mais centrista, não, ele quer que haja uma fronteira com a direita", e isso, disse, é “positivo a prazo”. Porquê? “Marcelo Rebelo de Sousa pode vir a ser – e não tenho dúvidas de que será, de acordo com as circunstâncias – um bom apoio para o Governo de esquerda”, tendo em conta o entendimento da função presidencial, mas também a “preocupação social” que Pacheco Pereira afirma ser “genuína”. “Ele no fundo corresponde àquilo que era o PSD e infelizmente hoje não é”.

Pacheco Pereira sempre foi considerado um “enfant terrible” no PSD, questionando com frequência a estratégia do partido. A crítica viria a intensificar-se com a eleição de Pedro Passos Coelho para a liderança do PSD, em 2010.

Pacheco Pereira participou nas iniciativas da esquerda na Aula Magna, em Maio e Novembro de 2013, primeiro para “Libertar Portugal da Austeridade” e depois para “Defender a Constituição”. A dois dias das eleições europeias, em maio de 2014, assumiu que não iria votar no PSD e CDS, partidos que suportavam o Governo, apesar de um desses partidos ser o seu. Já em outubro de 2015, véspera de legislativas, Pacheco Pereira voltou ao ataque. 

"Não há-de ser por mim, como, aliás, por muitos sociais-democratas que ainda sabem o que designa essa classificação política, que a PàF [Portugal à Frente] vai ganhar”, escreveu no blogue Abrupto, deixando (outra vez) os sociais-democratas à beira de um ataque de nervos.