José Maria Ricciardi desmentiu os comentários de Marcelo Rebelo de Sousa sobre o seu papel no colapso do GES/BES, acusando o professor de ter «muita mágoa» por «não poder continuar a passar as suas habituais e luxuosas férias de fim de ano na mansão à beira-mar no Brasil de Ricardo Salgado».

Este domingo, no Jornal das 8 da TVI, Marcelo analisou a semana  de audições na comissão de inquérito parlamentar, que classificou de um «reality show». Sobre a audição dos dois principais protagonistas do GES, o comentador lembrou que Ricardo Salgado falou «já com zero poder» e José Maria Ricciardi ainda como presidente do BESI, o banco de investimento do BES, mas já «a exercer uma função pela mão dos chineses», já que o BESI foi vendido entretanto ao grupo Haitong.

Marcelo Rebelo de Sousa comentou as «estratégias preparadas» por ambos, dando razão a Salgado num aspeto: «É verdade que, formalmente, o presidente do conselho superior do grupo não era ele, era Ricciardi. E é verdade que a ESI, onde o primeiro buraco ocorreu, tinha como presidente Ricciardi». No entanto, destacou que era «evidente» que Ricardo Salgado era «chefe» da estrutura familiar.

No caso de José Maria Ricciardi, segundo Marcelo, «a estratégia foi: eu não tive nada a ver com aquilo que houve de errado, nomeadamente na parte final da gestão do grupo e com repercussões no banco. Fui até o primeiro a denunciar e muitas vezes sozinho».

As palavras do presidente do BESI deixaram duas «dúvidas» no comentador. «Ricciardi, apesar de tudo, era e é presidente do BESI e o BESI foi ouvido e avalizou todas as obrigações correspondentes ao papel comercial do GES. O presidente de um banco que deu o aval a obrigações que hoje levantam dúvidas porque a emissão dessas obrigações e a sucessão no tempo mostra o grau de endividamento no grupo, como pôde não acompanhar esse processo de muito perto?», questionou.

Além disso, continuou Marcelo, «tendo [Ricciardi] entrado em rutura com Salgado, por que é que depois fez as pazes e não voltou a demarcar-se, nem saiu da gestão de nenhuma das empresas do GES e do próprio BES?».

Por tudo isto, o ex-líder do PSD concluiu que há «leituras muito diferentes» do que se passou e tem havido uma «projeção da guerra familiar no palco parlamentar». «Cada um foi defender a sua dama e nenhum deles é um juiz imparcial», resumiu.

Após o comentário de Marcelo Rebelo de Sousa, José Maria Ricciardi enviou um comunicado às redações no qual nega o seu papel e as suas responsabilidades na queda do GES/BES.

 «Eu compreendo que Marcelo Rebelo de Sousa tenha muita mágoa em não poder continuar a passar as suas habituais e luxuosas férias de fim de ano na mansão à beira-mar no Brasil de Ricardo Salgado, mas essa mágoa não o autoriza a dizer mentiras a meu respeito e do banco a que presido, conforme fez no seu comentário de ontem», acusou.


Segundo Ricciardi, a «primeira mentira» de Marcelo foi que «o BESI, ao contrário do que disse, nunca avalizou a emissão e colocação do papel comercial do GES».

O presidente do BESI garante ainda que houve uma «segunda mentira». «Outra vez, ao contrário do que disse, não só manifestei formalmente em fevereiro de 2014 ao Banco de Portugal a minha indisponibilidade para continuar no BES, se não fosse alterado o modelo de governação, como ainda suspendi o meu mandato de administrador da ESI em Fevereiro de 2014 e apresentei a minha demissão no mês seguinte», assegurou.
 
O comunicado de Ricciardi termina com um pedido: «Espero que não surja uma terceira mentira».