O antigo Presidente da República Jorge Sampaio criticou este sábado a falta de neutralidade da Comissão Europeia (CE) ao possibilitar a candidatura de última hora da vice-presidente do executivo comunitário Kristalina Georgieva ao cargo de secretário-geral da ONU.

“O que mais me espanta é a falta de neutralidade da Comissão Europeia. Não me venham dizer que há muitos candidatos que são de países que pertencem à União Europeia. Isso só justificaria uma completa neutralidade, e essa neutralidade não se verificou”, afirmou Sampaio, à margem de um evento em Lisboa, em declarações transmitidas pela RTP1.

O antigo chefe de Estado português reagia à recente entrada na corrida ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas da búlgara Kristalina Georgieva, encarada como uma das mais difíceis adversárias do ex-primeiro-ministro português António Guterres, que também concorre à liderança da ONU.

Na quarta-feira, o primeiro-ministro da Bulgária, Boiko Borissov, anunciou que Sófia ia mudar a sua candidata ao cargo de secretário-geral da ONU, substituindo Irina Bokova (atual diretora-geral da UNESCO) por Kristalina Georgieva.

No mesmo dia, o presidente da Comissão Europeia decidiu conceder uma licença sem vencimento à vice-presidente Kristalina Georgieva, responsável pelo Orçamento e Recursos Humanos, para esta poder candidatar-se à liderança das Nações Unidas.

“Vamos ver o que isto dá como consequência. Vamos manter-nos esperançados e otimistas”, disse Sampaio, realçando que António Guterres é um candidato forte com provas dadas, “uma figura apetrechada” para desempenhar o cargo de secretário-geral da ONU que esteve desde o princípio da corrida.

“Não entrou no jogo na parte final”, frisou o antigo chefe de Estado, que esteve recentemente em Nova Iorque, integrado na comitiva do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, para manifestar apoio à candidatura de Guterres.

Para Jorge Sampaio, estas recentes movimentações na corrida à liderança da ONU indicam um “problema de credibilidade”.

“Ninguém poderia supor que velhos métodos voltariam mais uma vez a poder verificar-se. A abertura, o processo de tentativa de transparência, tentativa que deu resultado mundialmente visto, foi extremamente positiva, deu esperança, vamos ver como ela fica”, concluiu.

Os 15 membros do Conselho de Segurança da ONU realizaram já cinco rondas de votação informais e secretas para tentar avançar na seleção do próximo líder das Nações Unidas, em que António Guterres se destacou como favorito, atendendo a que as venceu todas.

Dos 12 candidatos iniciais, três já renunciaram, pelo que com a entrada de Kristalina Georgieva são dez os aspirantes ao cargo.

A próxima votação do Conselho de Segurança é na próxima quarta-feira, dia 5, mas agora ficará a conhecer-se a posição dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU – Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido –, com poder de veto.

António Guterres não quis comentar na quarta-feira a entrada de Kristalina Georgieva na corrida à liderança das Nações Unidas, quando abordado pelos jornalistas, em Lisboa.