O ex-secretário-geral Adjunto do Ministério da Administração Interna, Jorge Miguéis, que organiza eleições desde o 25 de Abril de 1974, foi reformado em outubro e agora o cargo está vazio, a cerca de dois meses das presidenciais.

Jorge Miguéis acompanhou os atos eleitorais desde o 25 de Abril, mas já não vai acompanhar as eleições presidenciais de 24 de janeiro, como pretendia, porque, para sua “surpresa”, foi reformado.

“A reforma foi a meu pedido, mas contava fazer ainda estas eleições. Normalmente a duração da concessão da aposentação demora seis, sete meses, e esta foi dada em dois meses e 29 dias”, disse o ex-secretário-geral adjunto do Ministério da Administração Interna à Lusa.

O despacho de reforma foi lavrado a 19 de outubro passado, no dia em que completou 66 anos, o que considerou “uma tremenda coincidência”.

“Não faço juízo de valores, nem teorias da conspiração. Mas aconteceu, para minha surpresa”, acrescentou, realçando que teve “uma carreira completa, a que faltou estar na organização destas eleições” presidenciais, como se tinha comprometido com o anterior secretário de Estado Adjunto João Almeida.

Há cerca de um ano, Jorge Miguéis era diretor-geral da Direção-geral da Administração Interna (DGAI), em regime de substituição, ficando depois da extinção da DGAI como secretário-geral Adjunto".

“Houve aqui algumas vicissitudes com que eu não esperava, mas que tiveram que acontecer. A política determina e as pessoas acatam e ou aceitam e continuam ou não continuam. Pedi a reforma com o tempo suficiente para o tempo normal de aposentação ser percorrido. Foi nessa condição que pedi a reforma. Não ia cometer a cobardia de evitar um ato eleitoral a dois meses ou três. Mas houve uma antecipação”, realçou.

Jorge Miguéis realçou que, entre todos os atos eleitorais realizados, o que foi “mais custoso de fazer, mas também mais gratificante”, foi o recente recenseamento devido à redução das freguesias de 4.252 para 3.091.

“Obrigou a um trabalho insano, a um trabalho dificílimo e arriscadíssimo do ponto de vista técnico e tecnológico, porque a base de dados do recenseamento eleitoral está sediada no organismo que eu dirigia”, afirmou.

Por outro lado, destaca a primeira eleição da democracia, “que foi uma coisa quase homérica”.

“Entrámos no desconhecido, não sabíamos como se fazia e foi tudo aprender desde o início, e aprender, e fazer asneiras, e fazer coisas boas, e levar a bom porto a eleição da Assembleia Constituinte. Estes para mim foram os pontos mais altos”, considerou.

Como ponto baixo destacou “os eleitores acumulados nas assembleias de voto para votar, sem saberem o seu número de eleitor”, nas presidenciais de 2011, quando era adjunto do diretor-geral.

“Na altura pedi a demissão e não foi aceite. Foi aceite a do Diretor-geral e eu fiquei como Diretor-geral três anos e oito meses. E passei de um Governo socialista para um governo social-democrata”, salientou.

Esta foi aliás uma constante dos últimos quase 20 anos, onde sempre foi diretor superior “um cargo de confiança política que atravessou vários governos de vários partidos e foi sempre renovado”.

Atualmente ainda é o representante do Ministério da Administração Interna na Comissão Nacional de Eleições (CNE) e “espera que a CNE faça o seu trabalho em relação às presidenciais”.