As tragédias não se comparam, mas contabilizam-se e até servem de exemplo. Mais de 16 anos depois de uma das maiores tragédias choradas em Portugal, a queda da ponte de Entre-os-Rios, e numa altura em que ainda se contam as mortes dos incêndios de outono, a demissão de um ministro é recordada, como se de um manual de instruções sobre como assumir responsabilidades políticas se tratasse. É o que está a acontecer com Jorge Coelho (e também com António Guterres) por causa do que Constança Urbano de Sousa não fez (e António Costa também não).

A ministra da Administração Interna sobreviveu, sem querer, assumiu a própria, a Pedrógão Grande, preparava-se para sobreviver às chamas de outubro, mas as férias, ou a falta delas, não lhe caíram bem e não caíram bem aos portugueses, sobretudo para aqueles que não esquecem as mais de 100 mortos nos incêndios deste ano, vítimas de mais duas datas - 17 de junho e 15/16 de outubro - que se juntam a 4 de março de 2001.

Era então Jorge Coelho titular da pasta do Equipamento Social, António Guterres primeiro-ministro, e a demissão do ministro não demorou mais de 24 horas.

A culpa não pode morrer solteira. Não ficaria bem com a minha consciência se não o fizesse", justificou, no dia seguinte. 

Não foi o único. Saíram ainda os secretários de Estado Luís Parreirão (Obras Públicas), Guilhermino Rodrigues (Transportes), José Junqueiro (Administração Portuária) e Leonor Coutinho (Habitação).

Porque morreram 59 pessoas na queda da ponte Hintze Ribeiro, porque a ponte com mais de 100 anos e o conhecimento oficial da sua fragilidade não permitiam outra decisão, pedido que o chefe do Governo considerou "irrecusável".

É este o exemplo que muitos recordam no dia em que Constança Urbano de Sousa apresentou a demissão, com um intervalo de quatro meses justificados apenas por "uma questão de lealdade" para com António Costa. E por estarem "esgotadas todas as condições" e para preservar a sua "dignidade pessoal"

Mas a crítica é quase unânime: já não vai a tempo.