
O filme é conhecido: começam a aparecer notícias sobre as dificuldades económicas e financeiras de um país; as autoridades negam essas dificuldades e dizem que está tudo sob controlo; os juros da dívida começam a subir; há sempre uma agência de rating, ou várias, que cortam na notação; os juros continuam a subir; e quando as autoridades repetem que está tudo bem, então nós sabemos que não está tudo bem e o pedido de ajuda vem a caminho. Assim foi com a Grécia, a Irlanda, Portugal ¿ e assim será com Espanha, provavelmente a horas de pedir ajuda externa para recapitalizar o seu sector bancário. Para os mais optimistas, Espanha necessita de 40 mil milhões de euros; para os mais pessimistas, a cifra fura mesmo os 100 mil milhões. E isto é apenas parte da história na medida em que Espanha representa bem as três crises do euro.
A tese das «três crises» pertence ao investigador Jim Shambaugh que apresentou um interessante estudo sobre essas três crises que definem o actual momento em que vive a União Europeia. Na sua opinião, falar da crise do euro é falar de uma crise bancária (e Espanha ilustra-o); em segundo lugar, é falar de uma crise de dívida (e não é por acaso que o corte da agência Fitch em três níveis refere alto endividamento público e privado, o que coloca Espanha, nos mercados de emissão de dívida, a pagar juros próximos dos 7% a 10 anos); e em terceiro lugar existe uma crise de crescimento (mal de que Espanha também padece, com uma economia em recessão e desemprego próximo dos 24%).
Quais são as consequências da crise do euro ser na verdade uma crise tripla? As consequências são duas. Em primeiro lugar, significa que a recapitalização do sector bancário, seja por que preço for, não resolverá as outras duas ¿ para as quais, diga-se desde já, não há fundo europeu ou mecanismo de estabilidade que nos valha. Mas o estudo sobre as três crises do euro vai mais longe do que isso: ele apresenta a interligação que existe entre a banca, a dívida e o crescimento económico. E cuidar apenas de um problema significa agravar os outros dois. Resgatar bancos, por exemplo, pode agravar a crise da dívida (como se viu na Irlanda); políticas de austeridade podem agravar o crescimento (como se viu na Grécia).
Quando Madrid atirar a toalha, é provável que se ouçam suspiros de alívio pela Europa fora. Será uma ilusão: se a crise do euro é na verdade composta por três crises, resgatar a banca nada fará pela solvência de Espanha e pela sobrevivência do euro.