O deputado socialista João Galamba afirmou esta quinta-feira que o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, «tem de explicar o que pensa» das declarações do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, sobre o tratamento indigno aos países da periferia do euro.

«Quem já está confrontado com estas declarações é o primeiro-ministro, que aliás terá de explicar o que pensa das declarações de alguém que [a maioria PSD/CDS-PP] apoiou para liderar a Comissão Europeia», afirmou o dirigente do PS.

No final da reunião do grupo parlamentar socialista, na Assembleia da República, João Galamba considerou que o comportamento da ministra das Finanças na sua recente visita a Berlim, onde participou numa conferência com o ministro das Finanças alemão, está «em total contraste» com as posições de Juncker.

Na quarta-feira, o chefe do executivo comunitário admitiu que a troika «pecou contra a dignidade» de portugueses, gregos e também irlandeses, reiterando que é preciso rever o modelo e não repetir os mesmos erros.

«São declarações muito importantes e estão em total contraste com a lamentável cena ontem [quarta-feira] em Berlim da ministra Maria Luís Albuquerque com o ministro das Finanças alemão, onde o que vimos foi Portugal a ser usado indignamente como troféu da austeridade», criticou Galamba.

O deputado do PS João Galamba considerou «positivo, embora tardio», o reconhecimento do presidente da Comissão Europeia.

«[As declarações de Juncker] parecem indiciar que a atual União Europeia (UE) tem consciência do facto, isso é positivo. Torna-me mais otimista sobre as negociações que estão agora em curso com a Grécia e é uma excelente oportunidade para a Europa fazer finalmente um diagnóstico sobre a estratégia implementada nos últimos anos», disse o deputado socialista, em declarações à agência Lusa.

Para João Galamba, as declarações de Juncker perante o Comité Económico e Social traduzem «aquilo que é mais evidente para um número crescente de pessoas», nomeadamente de que a estratégia seguida nos países sob intervenção externa foi «um erro».

«Não resolveu o problema da dívida, agravou a crise, criou problemas sociais gravíssimos que, no caso grego, atingiram um nível tal que podemos quase falar numa crise humanitária», sustentou.


PCP: Juncker teve «pesadíssimas responsabilidades»

Já o secretário-geral do PCP acusou o presidente da Comissão Europeia de tentar «limpar as mãos à parede», e de reafirmar a continuação da política da UE, defendendo que é preciso «uma rutura com esta política do desastre».

«Creio que esta tentativa de limpar as mãos à parede não resulta na medida em que, na sua declaração, para além dos pecados que confessou, foi a afirmação e a reafirmação que esta política da União Europeia (UE) deve continuar, portanto, a ser executada», afirmou Jerónimo de Sousa, em declarações aos jornalistas, no final da reunião com o Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos.

«A questão de fundo não se trata de desabafos, nem de rebates de consciência, trata-se da exigência que é preciso colocar e praticar, a rutura com esta política do desastre, e não prossegui-la, como disse o senhor Juncker, porque de desabafos e boas intenções está o inferno cheio», acrescentou, afirmando que o problema não é de ordem moral.

Sobre Jean-Claude Juncker, o secretário-geral do PCP declarou ainda que «é o atual presidente da Comissão Europeia a criticar o antigo presidente do Eurogrupo, que por acaso é a mesma pessoa», acrescentando que não considera que o presidente da Comissão Europeia esteja arrependido.

O deputado comunista João Ferreira classificou de «enorme desfaçatez» as declarações do Presidente da Comissão Europeia, recordando que Jean-Claude Juncker teve «pesadíssimas responsabilidades» nos programas de intervenção.

«São declarações que revelam uma enorme desfaçatez, proferidas por alguém que teve pesadíssimas responsabilidades, enquanto presidente do Eurogrupo, no desenho dos programas de intervenção da troika», assinalou o eurodeputado comunista.

Segundo João Ferreira, o facto de a troika e os seus memorandos terem atentado contra a dignidade dos portugueses, gregos e irlandeses «não foi por uma mera questão formal, como Juncker parece sugerir agora», mas sim por um problema de «conteúdo de políticas».

Para o deputado comunista, aquilo que se pretende agora é «baralhar e dar de novo», passando a troika a um quarteto, conforme as declarações do presidente da Comissão Europeia, que sugere manter as instituições que dela fazem parte, incluindo um ministro na dependência do presidente do Eurogrupo.

«Ou seja, quer mudar o embrulho para que o presente continue a ser o mesmo presente envenenado. [Juncker] diz que as políticas ditas de consolidação devem continuar, ou seja, estamos perante uma tentativa de prosseguir a politica da troika sem a troika», sustentou.

João Ferreira defendeu uma «política alternativa» que, no plano nacional, passaria por uma «política patriótica, que saiba assumir a rutura com as imposições e subordinação às potências da União Europeia».

O deputado ao Parlamento Europeu preconizou também uma política de esquerda «que promova o desenvolvimento económico e social e o progresso, e que rompa com o caminho de declínio para onde o país foi arrastado».


BE apela a mudança

Por sua vez, os bloquistas apelaram Jean-Claude Juncker a contribuir para a mudança de políticas que permitam pôr fim à austeridade.

«Se o senhor Juncker entende que as instituições europeias pecaram contra a dignidade dos povos então está numa excelente posição para alterar esse rumo das coisas», disse em declarações à agência Lusa.

Segundo a eurodeputada, a prova de que a dignidade dos povos foi colocada em causa é espelhada nos indicadores, quer na Grécia, quer em Portugal, lembrando que os dois países perderam, num caso «um milhão de postos de trabalho e em outro caso meio milhão».

«Houve nos dois países o aumento da pobreza infantil, da pobreza em geral, da desigualdade social, assistimos ao aumento do desemprego enorme e à destruição da economia», lamentou Marisa Matias.

A eurodeputada recordou que apesar dos sacrifícios nenhum dos objetivos que eram avançados pelos programas de ajustamento foram cumpridos, sendo que a dívida, «que continuou a crescer», se encontra agora «em níveis insustentáveis» quer na Grécia quer em Portugal.

Para Marisa Matias há um «bom caminho para fazer a ‘mea culpa’» que passa pela adoção de políticas que deixem de fora a troika e que apontem para a eliminação da austeridade, acrescentando que só assim os países vão poder «respirar um bocadinho mais e colocar a crescer as economias que foram tão afetadas».

«Espero que seja um primeiro passo, há muito boas oportunidades agora para demonstrar se é e se se quer mudar alguma coisa ou não. Há amanhã uma reunião do Eurogrupo onde esses sinais se podem transformar em ações», explicou, lembrando que Juncker tem tido palavras críticas em relação a várias coisas e de incentivo ao investimento.

No entanto, Marisa Matias sublinhou que as propostas apresentadas pela Comissão Europeia, nomeadamente o plano de investimento, «deixam de fora aqueles que mais precisam».

PSD encara declarações com «naturalidade»

Do lado do PSD, o eurodeputado Paulo Rangel disse encarar «'com naturalidade» as declarações do presidente da Comissão Europeia sobre a postura da troika nos países intervencionados, recordando que o comissário Carlos Moedas já tinha alertado para o problema.

«Eu encaro com toda a naturalidade. Não há aí novidade nenhuma. Carlos Moedas já tinha chamado a atenção para o facto de o modelo da troika não ser o mais adequado», disse à agência Lusa o eurodeputado.

Em declarações à Lusa, Paulo Rangel disse que esta «era uma crítica que muitos faziam».

«O que sempre se disse é que o modelo da troika não era o mais adequado porque punha par a par entidades tecnocráticas e burocráticas com entidades políticas, e às vezes havia alguns bloqueios e até algum desconforto de estados, porque as autoridades democraticamente instituídas tinham que lidar com quadros puramente técnicos.»

De acordo com Paulo Rangel, não existe nada do ponto de vista substantivo, as declarações de Juncker correspondem apenas a uma posição no seio da comissão que era partilhada por muitos.

«Os comissários português e irlandês disseram há uns tempos que era importante mudar o modelo da troika porque consideravam, por experiência própria, que esse modelo tinha algumas limitações e criava desequilíbrios democráticos», recordou.

Paulo Rangel lembrou que Jean-Claude Juncker sempre foi uma pessoa muito crítica do modelo, mesmo quando presidia ao Eurogrupo.

«Podemos é dizer que estas críticas surgem numa altura em que há uma negociação entre o governo grego e a Comissão Europeia, mas mais uma vez encaro isto tudo com naturalidade», concluiu.


CDS: Sítuação foi «superas»

Já Nuno Magalhães afirmou que as críticas de Juncker coincidem com «os alertas» deixados pelo CDS-PP nos últimos três anos, mas que essa situação foi «superada» por «mérito dos portugueses«.

«Aquilo que o senhor Juncker disse foi aquilo que o CDS ao longo dos tempos, de uma forma mais ou menos explícita, foi alertando, um governo de protetorado é um vexame, é uma humilhação que o PS nos deixou, foi muito difícil cogovernar com os credores mas conseguimos», afirmou Nuno Magalhães aos jornalistas no parlamento.

O presidente do grupo parlamentar do CDS-PP assinalou que os centristas alertaram «várias vezes» para «uma discrepância pouco aceitável entre aquilo que responsáveis do FMI, sobretudo, mas também da Comissão Europeia e do BCE, diziam à comunicação social e o que os técnicos aqui propunham e exigiam».

«Dito isto, e sabendo até que o senhor Juncker já tinha dito algo parecido no seu discurso no Parlamento Europeu, não nos surpreende, agora, gostaria de deixar bem claro que foi graças ao esforço, à dignidade, à vontade, e às vezes contra a vontade da própria troika, que os portugueses se livraram da troika», declarou.

Para o deputado do CDS, «não foi a troika que superou os portugueses, foram os portugueses que superaram a troika no prazo, no momento previsto».